segunda-feira, 15 de novembro de 2010

"O Rio" de Idmar Boaventura


O Rio

Neste ponto do abismo
em que me lanço,
o rio.
Tortuoso, infindo, vário,
profundo é o abismo
em que mergulho.
E este rio de incontáveis
margens, de insondáveis
rios,
lambendo as pedras no caminho,
inflexível.

O que hei de fazer comigo?
Em que porto
hei de encontrar descanso,
em que leito encontrarei
abrigo?
Sigo com a correnteza
do abismo,
sou água, sou lama, granito.
Contorno as pedras
que em mim se desfazem
e me desfaço nelas.
Sou fragmentos,
matéria difusa, sou vário:
infinitamente rio
e abismo
de incontáveis margens.

(In: A outra margem. Fundação Pedro Calmon, 2008)

A outra margem é um título que suscita muitas abordagens, sobretudo quando o assunto é poesia e se tem como referência um escritor como João Guimarães Rosa, cuja linguagem é um manancial que banha a todos nós, os escritores contemporâneos de língua portuguesa.
As águas de Idmar Boaventura são as mesmas do mestre Rosa, mas são, também, outras bem diversas; digamos que umas se banham nas outras para seguirem seus cursos ainda mais límpidas. Idmar é consciente dessa confluência, e assim, solitário na pluralidade, é um "rio de infindáveis margens", que busca a terceira margem- lugar dos libertos.

(José Inácio Vieira de Melo)

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