quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Mario Vargas Llosa ganha o Nobel de Literatura 2010

Na foto que ilustra este post, o mais recente Nobel de Literatura, o mestre peruano Mario Vargas Llosa caminha pelas alamedas da Praça da Alfândega durante a passagem do autor pela Feira do Livro, em 1997 (a foto é Adriana Franciosi, ZH). A cena exata não se repetirá, é claro, mas Vargas Llosa estará outra vez em Porto Alegre no próximo dia 14, uma quinta-feira, para uma palestra no ciclo de altos estudos Fronteiras do Pensamento. Llosa foi anunciado há pouco como o Nobel de Literatura 2010, “por sua cartografia das estruturas de poder e suas  imagens mordazes da resistência, da revolta, e da derrota do indivíduo”, escreveu a Academia Sueca em sua justificativa oficial
A escolha de Vargas Llosa, embora plenamente justificável e não totalmente inesperada pela estatura do escritor e de sua obra, não era uma das apostas mais altas para o prêmio deste ano – o que também não quer dizer muita coisa, já que as bolsas de apostas raramente cravam suas fichas no escritor que realmente leva. Vargas Llosa é o primeiro escritor de língua espanhola a ganhar o prêmio desde 1990 – quando o Nobel foi para o mexicano Octávio Paz. E o último autor da América do Sul a levar o prêmio havia sido o desafeto de Llosa, o colombiano Gabriel García Márquez, em 1982.
Llosa já declarou à agência AP que o galardão (palavra bonita, não?) “é um reconhecimento à lingua espanhol em que escrevo e à literatura latino-americana. A verdade é que eu não esperava, foi uma surpresa total, ainda que uma surpresa muito agradável.”
O autor já escreveu mais de 30 livros, entre romances e ensaios, entre eles obras magistrais como Pantaleão e as Visitadoras, Conversa na Catedral, A Casa Verde e A Cidade e os Cachorros. Deve sair até o fim do ano seu próximo romance, El Sueño del Celta, biografia romanceada de um personagem real, o irlandês Roger Casement. O Nobel vem coroar o reconhecimento internacional da obra de Llosa – ele já havia recebido em 1995 o Prêmio Cervantes, o mais prestigioso prêmio para os escritores de língua espanhola.

Fonte:http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/2010/10/07/o-nobel-vem-ai/?topo=13,1,1,,,13

terça-feira, 5 de outubro de 2010

A poesia de Idmar Boaventura

Nessa minha vida de leitora apaixonada, tenho me dedicado à leitura de escritores baianos e, para minha alegria, percebo que temos gente boa fazendo literatura. Hoje resolvi postar uma poesia de Idmar Boaventura, poeta e professor de Literatura da UEFS. Uma poesia que reflete as nossas andanças, nossas buscas intermináveis por estes caminhos da vida.

 Dos inóspitos caminhos

Nenhum barco vem ou vai,
eu sei,
mas o que fazemos no cais?
Sob os escombros da alma
a imensa sede de nada?
E o destino que mapeiam
só uma rota inventada?
Que saberemos, poeta,
dos inóspitos caminhos?
Nada, talvez.
Nada.

Do livro A outra margem (2008)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Os Acordes de Roberval Pereyr

Cantiga 2

Rasguei as velas
deixei meu barco vagar.

Não foi por ela
mas por aquela
que me deixou neste mar.

Há anos vivo este drama
-o de quem não sabe onde está:
no desterro? na cama?
na antecâmara
                             do medo?

Quem o saberá?
Qem o saberá?

Poesia retirada do livro Acordes (2010), do poeta, professor de Literatura e ensaísta, Roberval Pereyr

domingo, 3 de outubro de 2010

Um conto de Adelice Souza

Este ano  tive o prazer de conhecer a contística de Adelice Souza, através do professor Roberto Seidel. Fiquei maravilhada com o seu trabalho e trago para este espaço um pequeno conto que exemplica a qualidade de seus textos.
 
A louca e a Lua

Achavam na rua que ela era louca. Não trabalhava, não estudava, não tinha família e falava muito pouco ou quase nada, somente quando lhe perguntavam alguma coisa e ainda assim com uma voz tão baixinha que quase ninguém a escutava. Comia o que lhe davam de caridade na igreja e vivia contente assim, andando e olhando pro céu, como se quisesse voar, como se fizesse parte do mundo lá de cima e não desse aqui. E tinha um estranho hábito: catava carteiras de cigarros que ia encontrando pelo chão ou no lixo. Um dia as pessoas da cidade resolveram fazer uma festa em comemoração ao padroeiro São Jorge: seria uma festa com missa, quermesse, procissão, feirinha de artesanato e até uma peça de teatro com o santo guerreiro e o dragão brigando na lua. Ela pediu para fazer parte da apresentação e riram dela. Insistiu tanto e aquilo era tão uma novidade que as pessoas aceitaram sua participação na peça (já que na quermesse, na missa ou na feira ia ser mesmo difícil achar alguma tarefa pra ela fazer). Ela assistiu aos ensaios calada, sem dizer palavra, com um sorriso de mãe de deus estampado na alma. Nem deram por sua presença. No dia da festa, no meio da confusão que fervia na cidade – isso eu nunca vou esquecer –, um silêncio de pedra tomou conta de todos, foi uma revelação, quase uma epifania: era ela, aquela mesma mulher, agora tão radiante e linda, meu deus, que apareceu na praça vestida de lua, com uma fantasia feita com o papel laminado das carteiras de cigarro. A cidade nunca mais foi a mesma. Dizem até que naquele dia São Jorge venceu o dragão e desceu do céu, no rabo de uma estrela, para agradecer.
Adelice Souza (1973), nasceu em Castro Alves -BA. Mora em Salvador. É graduada pela Universidade Católica do Salvador em Comunicação Social e em Direção Teatral pela Universidade Federal da Bahia, onde atualmente leciona Dramaturgia e Preparação do Ator. Como diretora, dirigiu os espetáculos “O Beijo no Asfalto” (1997), “Hamlet-Machine”(1997), “A Balsa dos Mortos”(1998), “De Alma Lavada”(1999) e “Red não é vermelho” (2001) e "Na Solidão dos Campos de Algodão"(2004). “De Alma Lavada” e "Na Solidão dos Campos de Algodão" receberam três indicações ao Prêmio Copene de Teatro. Dirigiu também o Palco Maracangalha na 53 SBPC Cultura. Como autora e diretora dirigiu “Fogo Possesso”(2005) e “Metamorphos-In”(2006), adaptação de “A Metamorfose”, de Franz Kafka. Ganhou o Prêmio Copene de Literatura 2001 com o livro de contos “As camas e os Cães”, premiado também pela União Brasileira dos Escritores(RJ) com o Trofeu Jose Alejandro Cabassa como o melhor livro de contos publicado em 2001.Em 2003 e 2004 ganhou o Concurso de Contos Luiz Vilella. Em 2003, venceu o Concurso de Contos do Banco Capital, que publicou o seu segundo livro "Caramujos Zumbis". Em 2005, integrou a coletânea da Ed. Record, organizada por Luiz Ruffato, "As 30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira".