quarta-feira, 22 de junho de 2011

Levitação II

Idmar   Boaventura

Bebi das águas do Lethes,
e enfim adormeci.
Para acordar sem angústias,
liberto de todo o peso.
Para enfim, poder ser leve.
Acordar com o chilreio dos pardais
e adormecer com cigarras
e, no entremeio, 
levitar
como quem alcançou a graça do nada.
Leve como a sombra de um pluma,
como a brisa que se esquece
de passar.


Este poema de Idmar Boaventura apresenta um dos valores proposto por Italo Calvino , em seu livro Seis propostas para um novo milênio. O valor que destacamos é o da "Leveza", manifestado através do abandono  do peso no rio Lethes que, segundo a mitologia grega, seria responsável por apagar a memória daqueles que bebessem de suas águas. Os quatro primeiros versos já indicam a passagem do estado de peso para o estado de levitação, já que, após  o adormecimento, as angústias (peso) são substituídas pelo alcance da "graça do nada". A leveza também é notável através dos "chilreio dos pardais"," sombra de um pluma" e da brisa que aquece. As propostas sugeridas por Calvino são valores estéticos que, segundo o autor, a literatura deste nosso milênio deve apresentar.


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