domingo, 22 de dezembro de 2013

Por que ler Literatura?


Escrever é mesmo um gesto de (des)enovelar a vida. É óbvio que eu não estou falando de qualquer escrita, mas da arte literária. Aqueles que não têm sensibilidade para a literatura buscam nela um sentido pragmático, querem encaixá-la no esquema funcional tão valorizado por nossa sociedade, sem compreender que a literatura não serve para nada. Mas o “nada” deve representar alguma coisa impalpável que, por ser nomeado, deixa de ser a representação do vazio. E essa conversa está tomando um rumo metafísico e eu de metafísica entendo quase nada, por isso, voltemos ao (des)enovelar a vida.
            Sempre que me perguntam para que serve um texto literário, eu , prontamente, informo que para coisa alguma. Depois do espanto do questionador, digo-lhe que, primeiramente, para ser lido. E acrescento: só quem for capaz de entregar-se à leitura, será capaz de, por si só, descobrir qual a finalidade da literatura. Aí é mesmo que matar o interrogador, porque, geralmente, quem faz uma pergunta dessa é um não leitor, ávido por respostas prontas.  E se há uma coisa que aprendi através das minhas leituras literárias, é que não há respostas prontas para nossas indagações.
            Quando afirmo que a escrita é a arte de (des)enovelar a vida, penso nas certezas que fui capaz de construir e desconstruir, ou melhor, enovelar e desenovelar, a partir das inúmeras leituras que fiz. E acredito que quem escreve nada mais faz do que (des)tecer vidas alheias, imaginárias ou conhecidas, e por que não a sua própria vida? Começamos então a perceber que a literatura tem, sim, uma funcionalidade, tanto para quem escreve quanto para quem ler. No entanto, não há como mensurar sua utilidade na vida do escritor ou leitor, visto que não temos um padrão de escritor/leitor, mas uma diversidade de sujeitos que se encontram e se encantam na/com a literatura, revelando através dela ou buscando encontrar nela suas idiossincrasias.
            Em época de “civilização do espetáculo”, como tão bem definiu esse tempo o escritor Mario Vargas Llosa, em que as coisas, os gestos, os encontros não foram feitos para durar; que se cultua, na maioria das vezes, apenas o entretenimento e não a contemplação estética da arte, não há dúvida de que se tem lido muito e em diferentes suportes. Mas será que essa literatura consumida por uma gama de supostamente cultos tem sido capaz de mover as águas paradas de nossa existência? Eu não sei!
Mas uma coisa eu afirmo sem medo: se temos que aceitar tudo o que é denominado literatura como literatura, também podemos afirmar que há textos que acrescentam e outros que não. E em meio a tantas “literaturas”, eu tomo emprestadas as palavras no Nobel aqui já citado, para dizer de minha questionável opinião: “[...] um bom livro nos aproxima do abismo da experiência humana e de seus efervescentes mistérios”.

Elis Franco 22/12/13

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