quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Uma década de amizade


Por Elis Franco

No ano em que completaria uma década de amizade entre elas, as coisas pareciam ruir, a certeza de que a distância nunca mudaria os seus sentimentos começava a desabar. E os últimos meses tinham sido difíceis para as duas: elas não se acertavam mais. Talvez a Mais Velha sentisse esta cisão de modo mais intenso, porque estava se aproximando a data em que comemoraria seu trigésimo terceiro aniversário natalício e, há muito tempo, uma ideia vinha lhe assaltando a mente: ela morreria aos trinta e dois anos. O que desencadeou uma sensação de desconforto entre elas foi o fato de a Mais Nova ter feito uma promessa que seria incapaz de cumprir. O pior: ultimamente a Mais Nova tinha tomado posse de uma ideia fixa e, por essa ideia, tinha sido capaz de ir a São Paulo, a Aracaju, mas não percorreu os cerca de cento e cinquenta quilômetros que a separava da Mais Velha.
A Mais Nova certamente não compreenderia a sensação de desamparo da Mais Velha. Como também não se lembraria de que, quando decidiu se mudar para a capital, a Mais Velha deixou a filha com a avó e foi passar a noite que antecedeu a mudança com ela, só para poder ficar um pouco mais perto. E será que a Mais Nova se recordava de que a Mais Velha, algum tempo depois de ela ter deixado o interior, foi capaz de, em um ônibus lotado e em companhia da filha, atravessar Salvador de um lado a outro só para lhe fazer uma visita? Não. Ela não se lembraria de quando a Mais Velha, após ter passado mais de doze horas de viagem, num processo de sobe e desce do avião – ela estava retornando do interior do Amazonas, após cinco dias distante do marido e das duas filhas –, saiu do aeroporto da capital diretamente para a casa da Mais Nova, onde permaneceria de quinta até a segunda-feira, só porque a Mais Nova implicou que queria ir a um show com ela. Sem contar que a Mais Nova havia prometido buscá-la no aeroporto e lá não apareceu. Mas, pela ideia fixa, lá foi ela certa vez, antes da virada do ano.
A Mais Velha ultimamente tinha deixado de acreditar em muita coisa. Assumira um lado irônico que jamais pensou que tivesse. O pior é que, mesmo não acreditando nestas conversas de signo, percebia que ser taurina não era uma tarefa fácil – os taurinos são ciumentos e, às vezes, ressentidos ao extremo. Mas, aquele lado doce, pacífico e conciliador da Mais Velha não havia desaparecido de todo. Por isso, ela não esqueceria nunca que a Mais Nova era o seu eu refletido no espelho. Um eu que nem sempre ela teve a coragem de assumir publicamente. A Mais Velha também não se esqueceria de que a Mais Nova desejava sempre compartilhar as melhores coisas e acontecimentos com ela. Que ao lado dela, assistira aos filmes mais interessantes de sua vida – ainda que fosse dispersa e levasse bronca da Mais Nova pela sua falta de atenção.
E como esquecer-se do bolo açucarado e do café forte preparado com tanto zelo? De Virgínia Woolf, Edith Piaf, Clarice Lispector e outras coisas boas que aprendera a admirar por causa dela? Não se esqueceria do quanto os olhos da Mais Nova brilharam no dia em que foram ao lançamento de um livro em que a Mais Velha havia publicado um artigo. Daquele 18 de fevereiro de 2011, quando a Mais Nova, em visita à sua casa, fora a primeira a anunciar que a Mais Velha havia passado na seleção do mestrado em Literatura, e as duas comemoram com um espumante. Do quanto riram e indignaram-se juntas. Conversaram sobre a existência ou não de Deus, sobre a dificuldade de estar no mundo.
Todas essas coisas vinham agora na cabeça da mais Velha. Ela se sentia horrível em seu ciúme, em sua insistência em deixar claro que a Mais Nova estava em dívida e precisava sofrer por isso. E o único modo de se libertar desse sentimento era transformar a linguagem que obscurecia sua mente em uma escrita que, certamente, não daria conta do que realmente sentia, mas aliviaria a tensão que a sufocava. Na verdade, a Mais Velha sabia que ultimamente estava meio estranha: poucos sonhos, apenas um desejo enorme de entregar-se às leituras literárias. Talvez, o que a Mais Velha não sabia era que toda a amargura e desencanto estava atrelada ao fato de acreditar que morreria aos trinta e dois anos, justamente no ano em que completaria uma década da amizade entre elas.