sábado, 28 de fevereiro de 2015

O não (re)conhecido

Elis Franco

       Outro dia, participando de um evento para professores, ouvi da palestrante uma história muito interessante. Ela nos contou que, certa vez, por ocasião da celebração da páscoa, decidiu comprar bacalhau e couve para o almoço. No dia anterior à comemoração, precisou sair com a filha, deixando a casa sob os cuidados da empregada.
      Quando, no domingo, ela abriu a geladeira para separar os ingredientes, nada encontrou. Chamou a filha e relatou o ocorrido, cogitando que a empregada poderia, por algum motivo desconhecido, ter levado o bacalhau e a couve para casa. Sem saber o que realmente havia acontecido, voltou ao supermercado e fez novas compras, preparando o almoço como planejado.
         Na segunda-feira pela manhã, a empregada chegou com o sorriso largo e foi inquirida sobre o destino do bacalhau e da couve. Espantada, disse que, para facilitar a vida da patroa, havia colocado o bacalhau em uma vasilha com água e cortado a couve, pondo-os na geladeira.
     Tal não foi a surpresa da patroa, ao perceber que foi incapaz de encontrar os ingredientes. E tudo se explica pelo simples fato de ela está procurando o que para ela era óbvio: um quilo de bacalhau embalado e folhas de couve inteiras. No entanto, aquilo que ela procurava não assumia mais a mesma forma.
         Essa história, aparentemente tão boba, ajuda-nos a refletir acerca de nossas certezas sobre as coisas. Aquilo que nos parece óbvio pode não ser tão claro para outras pessoas, gerando, assim, equívocos e desencontros. Aquilo que eu tento fazer o outro ver, a partir do modelo que disponho, pode não estar sendo percebido pelo outro da mesma maneira.
           Além disso, chega um momento da vida que é necessário fugir da obviedade; não nos acostumarmos com um olhar incapaz de perceber além do que temos como parâmetro. Afinal, perceber nada mais é do que conhecer por meio dos sentidos. E devemos ser capazes de usar nossos sentidos para reconhecer as mudanças pelas quais o mundo passa, ou não conseguiremos fazer uso daquilo que julgamos conhecimento adquirido.
            A couve e o bacalhau continuam na geladeira.  Porém, só será capaz de fazer uso deles aquele que possuir a habilidade de (des)construir formas e conceitos que já não atendem mais ao contexto vivido. Reconhecer as mudanças não necessariamente para aceitá-las, mas para que não passemos por ridículos ao não sabermos agir, prudentemente, quando elas se apresentarem a nós.


28/02/15

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