domingo, 8 de março de 2015

Uma questão de ética


Elis Franco

Diante da atual conjuntura política brasileira, a palavra ética tornou-se presente em variados discursos. No entanto, se analisarmos a fundo essa questão, observaremos que, infelizmente, não é apenas a esfera política que carece de indivíduos éticos, capazes de, como afirma o filósofo Mário Sergio Cortella, operar com três perguntas básicas antes de agir: Quero? Devo? Posso?
Tomando como base essas três indagações, não fica difícil estabelecer um padrão comportamental condizente com o equilíbrio e equidade em nosso ethos, nossa morada maior que é o mundo. Mas talvez nos questionemos sobre a capacidade que temos para mudar o mundo, ou melhor, para partilharmos os sabores e os saberes que nos garantirão o mínimo de qualidade de vida nessa nossa morada chamada Terra.
É muito fácil chamar de antiético a quem transgrida as leis do país, sobretudo quando a transgressão assume um caráter midiático, envolto em interesses não menos imorais. É muito fácil achar que a ética apenas tem a ver com questões relacionadas ao roubo, assassinato, aborto e outras questões científicas. Mas onde colocar a ética necessária ao dia a dia, tão sorrateiramente sufocada por sujeitos que se consideram moralmente perfeitos, mas que por trás da pele de cordeiro escondem um lobo devorador, preocupado apenas com o próprio umbigo?
Onde encontrar a ética quando nos aproveitamos da necessidade das pessoas para explorar a sua mão de obra por um preço irrisório? Quando desejamos que o outro dê um jeito rápido naquilo que deveríamos fazer em um prazo estabelecido, mas que, por falta de planejamento, deixamos de realizar? Quando achamos que nossa vida é sempre mais corrida que a do outro, por isso, devemos furar a fila ou recorrer ao “jeitinho brasileiro”, viabilizado por um conhecido sempre disposto a nos dar uma mãozinha?
Como vivenciar a experiência ética se eu posso “colar” as respostas de um amigo de turma, mesmo sabendo que eu não cumpri a minha obrigação de estudante, que é estudar? Se eu posso, enquanto professor, fazer meus alunos acreditarem que eu me preocupo com o aprendizado deles, mas, na verdade, nem sequer sei o que é preparar uma aula, repito apenas o que fiz em turmas anteriores, em anos anteriores, ainda que cada nova turma tenha as suas idiossincrasias?
Comportamentos antiéticos como esses se tornaram tão comuns que nem paramos para refletir até que ponto estamos sendo honestos com aqueles que dividem a morada conosco. Na verdade, o nosso narcisismo às vezes nos impede de vivenciar a alteridade, e tudo que desejamos é facilitar a nossa vida, ainda que isso custe a alguém um preço injusto. O nosso ethos, morada da ética por excelência, deve ser o lugar onde todas as nossas decisões e ações, para além de um moralismo devasso, só se concretizem após termos respondido a esses questionamentos: Quero? Sim. Posso? Sim. Mas será que devo?


08/03/15

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