domingo, 6 de setembro de 2015

É preciso abismar-se


Por Elis Franco

Na conjuntura atual, em que as relações tornaram-se tão superficiais e individualistas, há que se correr o risco de lançar-se ao abismo, não porque a coisa esteja tão terrível que a morte nas profundezas abissais seja a solução para o problema, mas tomando o ato de abismar-se no sentido de espantar-se com as situações incômodas de outrora, as quais, hoje, não são tão perceptíveis aos olhos de quem já não direciona o olhar para o lado, temendo perder o bonde, o horário, a vida.
O homem destinado a viver em comunhão com os outros, como definiu Aristóteles em sua Ética a Nicômaco, infelizmente, não é fácil de encontrar. A noção de vida em comunidade está, cada vez mais, sendo substituída pela vivência em ilhas supostamente agregadoras. Buscam-se os condomínios como opção de vivência, já que o mundo aqui fora se tornou inseguro e violento e, em muitos casos, poucos são os que se preocupam em resolver coletivamente o problema da insegurança.
O bem coletivo é menos importante do que o bem individual. Desse modo, blindar o carro, colocar uma cerca elétrica ou contratar seguranças são as opções mais viáveis quando a ideia é salvar a própria pele do caos em que se vive. É óbvio que qualquer cidadão tem direito de garantir a si aquilo que é, primeiramente, obrigação do governo proporcionar. No entanto, devemos refletir sobre se nossas ações não estão nos colocando em uma situação de alheamento comprometedor, visto que nos impedem de enxergar o quão grave é a situação coletiva, ainda que tenhamos condições de escamoteá-la através de medidas individuais.
Estamos, sem perceber, nos idiotizando, ou seja, sendo um daqueles idiótes gregos, dedicando-nos apenas aos assuntos particulares, afirmando que não há o que fazer para melhorar a situação. Enquanto a compra de um veículo for motivada apenas pelo fato de não querermos enfrentar um transporte público de baixa qualidade, quando, na verdade, deveríamos reivindicar condições melhores para o nosso deslocamento, colaborando assim para um trânsito menos engarrafado, certamente, a nossa casa comum permanecerá em desordem.
É preciso abismar-se diante do que vemos e transformar o espanto em ato, não em lamento. Afinal, é típico do humano viver com o outro, e os acontecimentos, por mais que pareçam isolados, atingem-nos em um grau menor ou maior de intensidade. É preciso, assim como cantou Carlos Drummond de Andrade, importantíssimo poeta do século XX, reforçar a ideia de que “Estou preso à vida e olho meus companheiros/Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.” E mais ainda,  “O presente é tão grande, não nos afastemos./ Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”

Em 06 de setembro de 2015


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