sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Aquela que saiu nua para o carnaval

Elis Franco

Mulher livre/ Maria Alm
Viver em estado de sítio foi, durante muito tempo, o destino único de algumas mulheres. Aquelas que por ventura transgrediram as regras do cerceamento imposto, dando um passo além da área própria para o seu trânsito, sofreram diferentes penalidades. A elas fora imposta a tutela paterna, seguida de uma ilusão dos contos de fadas: a mulher necessita de um príncipe que a salve e dela cuide. Tal príncipe era representado pela figura de um marido exemplar, um varão a quem se devia respeito e submissão.
Ainda hoje, é possível encontrar, em um número talvez menor, mulheres que sentem na pele 
os resquícios de uma época em que ser mulher era ser indefesa, mas ao mesmo tempo astuta. Atribuindo a elas essas qualidades, tornava-se fácil tentar enredá-la em um cerco, na tentativa de que não fossem seduzidas e, consequentemente, fizessem uso da astúcia que atrai e ludibria os juízos mais sãos.
Mas um dia, em algum lugar desse mundo de meu Deus, uma delas deu o salto para além do muro e a danação foi grande, abalando a autoridade patriarcal. Fico imaginando a cara do paspalho que presenciou o primeiro salto, o primeiro rompimento de barreira. Imagino o quanto deve ter sido difícil para o tal cara – ou caras – aceitar que o rumo da história, ainda que lentamente, começara a se modificar.
A coragem dessa primeira criatura impulsionou outras a darem saltos cada vez mais altos. Após os saltos, seguiu-se a destruição das barreiras e, apenas através da força brutal ou do julgamento social que marginaliza, pode-se tentar barrar as andanças que elas fazem, os espaços que ocupam. Para iniciar o processo, muitas tombaram com as barreiras, não se pode negar. Mas também não se deve esquecer de que, às vezes, o sacrifício de um pode garantir a sobrevivência de tantos outros do grupo.
E um dia, em um canto qualquer desse planeta, o grito dessas mulheres “galos”, ecoou forte na manhã de uma pobre moça que habitava uma cidadezinha qualquer, vivendo uma vida qualquer, sob preceitos que não compreendia bem, mas era obrigada, condenada a seguir. O grito do galo teceu uma nova manhã na vida da jovem, levando-a a perceber que  viver era uma festa, que no outro lado da rua era possível vivenciar as fantasias, colorir sem medo a vida desbotada que tinha.
Certa vez, a moça ouviu dizer que nós vestimos trajes que nem sempre combinam conosco, que não nos definem bem. Na época ela não compreendeu direito a expressão. Mas no dia em que o grito do galo ecoou na varanda de sua casa, a moça sentiu o que verdadeiramente essas palavras queriam dizer.
Era uma manhã festiva. O baile da vida a convidava para a dança. A moça, sem pensar duas vezes, despiu-se e, como quem pisa no coração do mundo, saiu nua para o carnaval.


13/02/15

domingo, 8 de fevereiro de 2015

A arte da amizade


Por Elis Franco

A quem chamar de amigo em uma época em que as relações são, em muitos casos, sustentadas mais por contatos virtuais do que físicos? A quem chamar de amigo quando amigos de longas datas, conhecidos recentes e pessoas nunca vistas estão inseridos em um mesmo contexto, obtendo informações sobre nossas vidas em um mesmo grau de qualidade e quantidade?
Assim como outras instâncias dos relacionamentos interpessoais, a amizade, ou pelo menos aquilo que é classificado como amizade, também sofreu modificações. Talvez seja necessário pensar como o personagem de Antoine de Saint-Exupéry, ao afirmar que o tempo dedicado a algo ou a alguém expressa o quanto este algo ou alguém é importante para nós.
É possível, ainda, assim como propôs o filósofo Aristóteles, classificar a amizade em três tipos distintos: amizade recíproca, amizade baseada na utilidade e a amizade baseada no prazer. Há aqueles que se tornaram amigos não pelo que outro possui ou será capaz de fazer por ele, mas apenas pelo que o outro é; pelo caráter e atitude, devotando-se mutuamente respeito e admiração.
Há pessoas, porém, que se fazem amigos pensando na utilidade que o outro terá em sua vida; nos benefícios que poderão receber. Tais pessoas, logo que cessarem os benefícios, irão buscar novas amizades, visto que seu objetivo deixou de ser alcançado. E o que dizer daqueles que se tornam nossos amigos a fim de desfrutar dos momentos agradáveis que somos capazes de lhes proporcionar? Do prazer que sentem ao estar ao nosso lado?
Certamente, em nosso grupo de amizade devem existir pessoas iguais a essas. Certamente, talvez estejamos nivelando os nossos amigos a partir do que eles apenas “são”, da “utilidade” que nos oferecem ou pelo “prazer” da companhia agradável. A verdade é que chega um momento em que é preciso organizar a lista e colocar cada coisa em seu lugar. Amigos verdadeiros não precisam ter utilidade... Amigos verdadeiros são aqueles com quem podemos contar, mesmo que eles não nos ofereçam nada de material. Amigos são seres diante de quem retiramos o véu que nos cobre a face esculpida por medos, traumas, dúvidas e alegrias.  Se não for possível retirar o véu, provavelmente está na hora de reorganizar a lista.


08/02/15