domingo, 5 de abril de 2015

A experiência da solidão


Elis Franco

Em um mundo conectado como o nosso, repleto de redes sociais e todos os tipos de parafernálias que nos ligam a pessoas de diferentes lugares, há pouco espaço para o ser que decide vivenciar a solidão. Aqueles que optam por uma vida menos agitada, por curtir um som baixinho e ler sem ser interrompido, geralmente é estereotipado como louco, o diferente, o antissocial.
Uma geração que expõe ilusões aos quatros ventos, que precisa mostrar que é feliz, quando na verdade não sabe o que sobra de felicidade após o último drinque da noite, o último o gozo da madrugada e a última imagem postada nas redes, tem dificuldades para ficar sozinha. Estar só, normalmente, faz-nos pensar no que somos, na vida que levamos. E descobrir o que de fato estamos sendo – já que desvendar o que de fato somos é uma tarefa extremamente complexa – vai de encontro à visão idealizada que às vezes temos de nós.
Temos hoje, talvez mais do que em outras épocas, uma geração ávida por movimento. Para “estar bem na fita” é preciso cumprir a regra que diz que “é impossível ser feliz sozinho”. Por isso, o mundo virtual se alegra com sucessivas imagens de encontros entre amigos e parentes (muitas vezes nem tão amigos assim), com a ideia de que se come, bebe, dorme e curte muito bem. Nesse mundo, evita-se mostrar o lado duro da humanidade: frustrações, dores, tristezas.
Não que haja algo de errado nisso. O problema é que corremos o risco de não nos reconhecermos e aceitarmos em nossa total humanidade. De criarmos uma imagem que pode convencer o outro, mas que nós mesmos não reconhecemos diante do espelho. Evitamos a solidão e, possivelmente, estaremos condenados a viver solitários, ainda que a nossa tentativa de viver em grupo seja constantemente revelada através de imagens melhoradas pelo editor de fotos.
A experiência da solidão, o momento em que buscamos uma interiorização a fim de compreender como se dá a nossa relação com o mundo, com as pessoas, conosco, ajuda-nos a exteriorizarmos os afetos e aproveitarmos melhor o momento dos encontros. Aqueles que dedicam tempo para a autoanálise podem encontrar-se com o outro de forma mais digna, pois terão uma maior chance de compartilhar algo que engrandeça o outro e serão engrandecidos pela pequenez recíproca dos seres que se encontram.
A solidão, ou melhor, o exercício adequado da solidão, pode nos livrar do equívoco de que estamos agregados quando, na verdade, ao deitarmos à noite, após um dia exaustivo de risos, fotos, curtidas e comentários, percebemos que, enquanto a solidão permite o encontro com o eu que se reflete no outro, o encontro com o outro desprovido de um reconhecimento de si nos torna ilusoriamente inseridos, apenas seres solitários em meio a um mar de gente que partilha do mesmo estado de suposta inserção.

05/03/15