domingo, 28 de maio de 2017

O tempo do outro


Por Elis Franco
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A palavra esperar, do latim “sperare”, significa aguardar, ter fé. Durante todo o percurso de nossa vida, momentos de espera são constantes e podem vir acompanhados de ansiedade negativa  ̶  quando, em uma situação de doença, aguardamos um resultado de um exame, por exemplo  ̶  ou de ansiedade positiva  ̶  quando se espera a chegada de um filho ou de alguém que retornará de uma viagem. Além dessas, há uma espera que, na maioria dos casos, não somos pacientes para aguardá-la: a espera pelo tempo do outro.
Lendo o romance Amor em minúscula, do espanhol Francesc Miralles, dei de cara com este fragmento atribuído ao escritor Hermann Hesse: “cada qual avança como pode e está em um trecho diferente do caminho”. Logo me veio à mente o quanto não somos tão hábeis em respeitar o ritmo de vida das pessoas que conosco convivem, seja no trabalho, na escola ou na variedade de relações que estabelecemos, envolvendo-nos, assim, em conflitos desnecessários, deixando, inclusive, de ampliarmos nosso repertório de vivências.
É assim com o professor ansioso para que seu aluno, em algumas horas, aprenda aquilo que ele aprendeu ao longo da vida acadêmica e da prática cotidiana. É assim com pais que desejam ardorosamente que um filho introjete os preceitos assimilados durante anos de trajetória. E não é diferente quando nos colocamos como superiores ao outro, visto dispormos de uma variedade de saberes, os quais foram adquiridos não de uma hora para a outra, mas numa sucessão temporal nem sempre compatível com a dos nossos parceiros de caminhada.
Na estrada da vida, cada pessoa ocupa uma posição e há várias situações  ̶  intelectual, afetiva, piscológica ̶  que ora nos colocam na linha de frente, ora em uma posição menos privilegiada. Ninguém é sempre aquele que lidera. Talvez por isso seja importante olhar para os nossos companheiros de viagem com maior alteridade e exercitarmos a cultura do estímulo recíproco e da compreensão.
 Como afirma o filósofo Fernando Savater, “Ninguém é sujeito na solidão e no isolamento, sempre se é sujeito entre outros sujeitos”. Que nossas ações impulsionem e não sejam barreiras. Que nunca incitemos ninguém a colocar o chapéu onde o braço não alcança ainda. Mas, quando for possível, tornemos para o outro a impossibilidade momentânea menos frustante e despertemos nele o desejo de continuar a caminhada, sendo humilde para aplaudirmos quem, em algum momento, ultrapasse-nos.

28/05/2017

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