quinta-feira, 6 de julho de 2017

De quem é a culpa?


O culpado não sou eu, é ele!
Por Elis Franco
          
        Penso que ser humano tem lá suas vantagens, e uma delas para mim é a capacidade de refletir sobre nossas ações e as ações alheias. Porém, infelizmente, nem todos os humanos exercitam a capacidade de reflexão, deixando-se levar pela autoacusação ou condenando uma atitude antes mesmo de saber o que precedeu tal comportamento dito equivocado. Talvez, a necessidade de achar um culpado afasta-nos de um questionamento importante e que precisa ser feito: o que aconteceu antes que isso acontecesse?
            A questão é que, ao fazermos esse questionamento, corre-se o risco de penetrar em um labirinto mais complexo do que imaginávamos e percebermos o quanto há uma intrincada rede por trás de um ato praticado ou uma reação ocorrida. No entanto, analisar as questões precedentes a uma prática não significa retirar a responsabilidade que cada pessoa deve ter sobre suas atitudes, mas, compreender, certamente não para passar a mão sobre a cabeça, os dilemas enfrentados antes de cada pessoa tornar-se o que é.
            Não deve ser difícil lembrarmos de uma situação em que criticamos duramente alguém do nosso convívio ou não, e só depois tivemos a percepção real dos fatores que contribuíram para que ele agisse assim, e isso gerou em nós o desejo de orientar sem condenar e, em casos mais graves, ser a favor da penalização, mas não contra a humanidade restante no ser que subverteu as regras sociais. Esse gesto é mais comum quando envolve pessoas com as quais temos um vínculo afetivo forte.
Mas isso só foi possível em momentos que aplacamos nosso desejo de julgar, quando o “erro” do outro não conseguiu incendiar em mim aquela  fagulha do mal, da perversidade que eu, por uma questão ética, por medo de sanções religiosas ou da lei, não permito que se manifeste em seu modo mais perverso. Dizer que é fácil agir dessa maneira é faltar com a verdade. Não é tarefa simples, é aprendizado contínuo.
Como diz o filósofo Luc Ferry, apropriando-se do conceito de Kant, é imperioso que exercitemos o pensamento alargado, ou seja, “arrancar-se de si, colocar-se no lugar do outro, e não somente para melhor compreendê-lo, mas também para tentar, num momento em que se volta para si, olhar seus próprios juízos do ponto de vista que poderia ser o dos outros”. Resumindo: é preciso exercitar a alteridade ou também teremos nossa parcela de culpa diante do caos que tem se tornado as relações sociais.

06/07/17


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