sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Memórias afetivas


         Resultado de imagem para memórias afetivas

Por Elis Franco

    Há acontecimentos que se tornam lembranças positivas, compondo nossas memórias afetivas e, creio eu, os episódios da infância e adolescência marcam-nos de modo mais intenso. Ao nos tornarmos adultos, nem sempre conseguimos lembrar-nos com tanta clareza das situações que nos afetaram, mas, quando há algo de significativo e forte no que vivemos, fica aquela imagem registrada em algum lugar do coração, pois, simbolicamente, é para lá que importamos tudo que nos importa, por isso, é interessante preencher-nos apenas com aquilo que nos traz paz, ainda que nem sempre consigamos.
            Entre as situações passadas que despertam em mim uma saudade gostosa estão comer o cavaco de dona Clarice, durante o intervalo, na escola pública onde estudei, e esperar o senhor do quebra-queixo, geralmente aos finais de semana, passar em minha rua com seu carrinho adaptado, ofertando-nos a alegria de saborear aquele doce de coco inesquecível. O cavaco de dona Clarice era uma massinha assada, fininha e sem recheio, polvilhada com açúcar. Esperávamos, ansiosamente, o momento em que ela, com seu carrinho de mão, chegasse ao colégio para adoçar nossas manhãs ou tardes. Acredito que aquele petisco era nosso preferido pelo fato de custar bem menos do que os outros lanches vendidos, e isso facilitava a nossa vida de estudantes pobres.
            Quanto ao senhor do quebra-queixo, lamento muito não me lembrar de seu nome agora, mesmo tendo me esforçado para isso. Se minha memória não me traiu, acredito que ele tenha sido avô de uma amiga de classe. O fato é que, quando ele passava na rua anunciando a sua guloseima, corríamos, cada um com o valor que dispunha, a fim de que ele cortasse o pedaço justo pelo quantia paga. Aquele senhorzinho talvez nunca tenha imaginado o quanto a sua passagem era importante para nós, não apenas para as crianças, mas para todos aqueles que o aguardavam desejosos.
            Do velhinho eu não tenho notícias, tenho apenas a sua imagem faceira descendo a rua e reunindo-nos ao seu redor. Dona Clarice mora agora bem mais perto de mim e abandonou o carrinho de mão, tornou-se proprietária de um mercado bem variado. Eu já não sou a criança da escola, no entanto, guardo vivas as lembranças daquela época. Faz anos que não como um cavaco, penso até em aprender a receita. Quebra-queixo eu compro sempre e não há como não me lembrar do senhor com seu carrinho adaptado, desconfiando sempre que a produção industrializada tirou o sabor daquele doce de outrora. E tudo isso me leva a pensar no tanto de afeto que os dois colocavam naquelas receitas, a ponto de eu, ainda hoje, sentir tão presentes aqueles marcantes sabores.

11/08/17
           

Um comentário:

  1. Elis, a merenda de Clarice alimentava, também, os professores....sinto saudades também.

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