terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Vida: desejo e busca



            Quando percebo o findar de mais um ano, desejo que no ano vindouro eu me torne ainda mais erótica, mais infinitamente erótica. Na verdade, gostaria muito que as crianças, os jovens — sobretudo os jovens —, os adultos e idosos recebessem, a cada dia, uma alta dose de erotismo. E não estou aqui falando de sexo, sedução ou  qualquer outra coisa relacionada aos dois, mas em uma das concepções míticas do erótico: Eros é filho de Penia (Penúria), por isso, está sempre em movimento, em busca do que lhe falta.
            Como afirma o filósofo Platão em O banquete, “O que irrita na ignorância é precisamente isto: há pessoas que não são distintas nem sensatas, e declaram-se satisfeitas. Ora, quem ignora que lhe falta algo, não sente necessidade de nada”. É a consciência de não sabermos tudo que nos impulsionará ao aprendizado contínuo. É a percepção de não termos feito tudo que somos capazes que nos motivará à realização de novos feitos. Sentir-se pleno de conhecimento e realização é, de algum modo, afastar-se da ação erótica, pelo menos se acreditarmos na versão mítica.
            Por isso é que eu desejo uma erotização geral. Que a pulsão de vida esteja presente em cada pessoa, pois, onde falta espaço para o sonho, o desejo, a busca, certamente a vida começou a findar. Resta-nos, então, assumirmos a nossa carência, a nossa limitação no tempo e fora do tempo. E, assim como disse Guimarães Rosa, acreditarmos que “o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam”. Afinemo-nos e desafinemo-nos, afinal, a melodia da vida é feita de oscilações e não de monotonia.

Elis Franco 31/12/13

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Eu não tenho amigos homossexuais, tenho amigos!

imagem:  http://zeluizjunqueira.wordpress.com/2012/09/21/amigos/
                
         Outro dia me perguntaram por que eu tinha tantos amigos e amigas homossexuais. Então parei para fazer uma contagem rápida e percebi que, realmente, muitas pessoas com as quais tenho me relacionado melhor pertencem a esse grupo distinto da sociedade.  E digo distinto não no sentido de isolado, separado, mas usando a acepção que mais me agrada quando penso na palavra distinção: notável, que não se confunde.
            Na verdade, a pergunta foi feita desta maneira: você não acha que tem muitos amigos homossexuais? Aí eu senti um tom de malícia no questionamento e cuidei logo de organizar as ideias para fornecer uma reposta adequada, afinal, quem convive com um grupo de notáveis, não sai por aí levando rasteira de gente mal amada, que não sabe distinguir alho de bugalho, como diz o ditado popular.
            Foi aí que afirmei com a cara de desdém — coisa que sei fazer bem — e para o espanto do questionador, que eu não tinha amigos homossexuais, tinha amigos. E completei dizendo que eu nada podia fazer se eu preferia manter relações com pessoas agradáveis, inteligentes, divertidas e humanamente capazes de se relacionar sem se preocupar com a condição sexual do outro. Para constranger ainda mais um infeliz que me fez tal pergunta, continuei dizendo que, provavelmente, por não ter as qualidades já citadas, ele não pertencia ao meu grupo seleto de amigos.
            A pergunta, no mínimo idiota, serviu para que eu refletisse sobre o comportamento humano. Se eu estou cercada por homossexuais que me ajudam a ser melhor, que tornam momentos simples em grandes encontros, que conversam sobre coisas sensatas e riem sem medo do ridículo, amando a vida no que ela tem de mais intenso; e se estou, também, cercada por heterossexuais incapazes de compreender a diversidade, ou melhor, respeitar a diversidade, eu opto por amigos homossexuais. No entanto, não afirmo que todos os homossexuais são iguais, nem que todos os heteros sigam a linha dura e conservadora.
            Na verdade, acho que sou apenas mais uma privilegiada por atrair gente boa, gente que é gente de verdade, seja lá qual for a condição sexual. E se eu levar em consideração a humanidade dos meus amigos “coloridos”, jamais serei capaz de inibir qualquer aproximação por receio do que as pessoas possam pensar. Sabe por quê? Porque pessoas que pensam não saem por aí fazendo juízo de valor dos outros. E para pessoas que não pensam, eu não dedico um minuto do meu precioso tempo, pois ele deve ser gasto apenas com pessoas notáveis, distintas, inconfundíveis.



Elis Franco 27/12/13

domingo, 22 de dezembro de 2013

Por que ler Literatura?


Escrever é mesmo um gesto de (des)enovelar a vida. É óbvio que eu não estou falando de qualquer escrita, mas da arte literária. Aqueles que não têm sensibilidade para a literatura buscam nela um sentido pragmático, querem encaixá-la no esquema funcional tão valorizado por nossa sociedade, sem compreender que a literatura não serve para nada. Mas o “nada” deve representar alguma coisa impalpável que, por ser nomeado, deixa de ser a representação do vazio. E essa conversa está tomando um rumo metafísico e eu de metafísica entendo quase nada, por isso, voltemos ao (des)enovelar a vida.
            Sempre que me perguntam para que serve um texto literário, eu , prontamente, informo que para coisa alguma. Depois do espanto do questionador, digo-lhe que, primeiramente, para ser lido. E acrescento: só quem for capaz de entregar-se à leitura, será capaz de, por si só, descobrir qual a finalidade da literatura. Aí é mesmo que matar o interrogador, porque, geralmente, quem faz uma pergunta dessa é um não leitor, ávido por respostas prontas.  E se há uma coisa que aprendi através das minhas leituras literárias, é que não há respostas prontas para nossas indagações.
            Quando afirmo que a escrita é a arte de (des)enovelar a vida, penso nas certezas que fui capaz de construir e desconstruir, ou melhor, enovelar e desenovelar, a partir das inúmeras leituras que fiz. E acredito que quem escreve nada mais faz do que (des)tecer vidas alheias, imaginárias ou conhecidas, e por que não a sua própria vida? Começamos então a perceber que a literatura tem, sim, uma funcionalidade, tanto para quem escreve quanto para quem ler. No entanto, não há como mensurar sua utilidade na vida do escritor ou leitor, visto que não temos um padrão de escritor/leitor, mas uma diversidade de sujeitos que se encontram e se encantam na/com a literatura, revelando através dela ou buscando encontrar nela suas idiossincrasias.
            Em época de “civilização do espetáculo”, como tão bem definiu esse tempo o escritor Mario Vargas Llosa, em que as coisas, os gestos, os encontros não foram feitos para durar; que se cultua, na maioria das vezes, apenas o entretenimento e não a contemplação estética da arte, não há dúvida de que se tem lido muito e em diferentes suportes. Mas será que essa literatura consumida por uma gama de supostamente cultos tem sido capaz de mover as águas paradas de nossa existência? Eu não sei!
Mas uma coisa eu afirmo sem medo: se temos que aceitar tudo o que é denominado literatura como literatura, também podemos afirmar que há textos que acrescentam e outros que não. E em meio a tantas “literaturas”, eu tomo emprestadas as palavras no Nobel aqui já citado, para dizer de minha questionável opinião: “[...] um bom livro nos aproxima do abismo da experiência humana e de seus efervescentes mistérios”.

Elis Franco 22/12/13

sábado, 21 de dezembro de 2013

Fome de viver


Imagem: http://menina-voadora.blogspot.com.br/2011/02/criancas-sorrindo.html


Enquanto a fome de viver for grande, 
todos os dias hão de ser benditos.

Como benditos serão os dias em que
não mais haverão espectros que nos assombrem
os sonhos ou demônios que nos perturbem a paz.

Todos os dias hão de ser benditos, 
enquanto a fome de viver for grande e,
em algum lugar no mundo, o sorriso
de uma criança nos desconserte, nos espante,
ainda que não saibamos mais o significado do que é

ter fome de viver.

                                                Elis Franco 21/12/13

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Lembranças e invenções: Adelice Souza e seu primeiro romance

Esta estória não é minha, mas também não é alheia. 
(Adelice Souza)




O primeiro contato que tive com a prosa de Adelice Souza foi em 2010, quando cursava a Especialização em Estudos Literários, na Universidade Estadual de Feira de Santana. Lembro-me quando o professor Dr. Roberto Henrique Seidel propôs à turma a leitura de alguns livros, entre os quais estava As camas e os cães (2001), da referida escritora. Como nutro uma grande paixão por contos e o título dessa obra soou-me provocativo e inusitado, decidi escolhê-la. Assim, nove anos após o lançamento, fui seduzida por aquela primeira publicação de Adelice Souza, o que me levou a enviar-lhe um e-mail, parabenizando sua contística.
Posteriormente, obtive não apenas a resposta do e-mail, mas recebi pelo correio seus outros dois livros: Caramujos zumbis (2003) e Para uma certa Nina  (2009). A leitura atenciosa de seus contos resultou em um trabalho de final de curso, ao qual denominei A linguagem do desejo: erotismo e feminino em contos de Adelice Souza (2011). Nele, busquei analisar a linguagem erótica, as metáforas e encenações de Eros, destacando o papel feminino no exercício da sexualidade.  
Após ter publicado três livros de contos e participado de quatro coletâneas, a premiada escritora, baiana da cidade de Castro Alves, lançou em 2012 o seu primeiro romance, O homem que sabia a hora de morrer. Através de uma narradora que, mesmo adulta, apresenta a agilidade e alegria infantis/juvenis, a escritora consegue abordar com leveza a temática da morte, por meio de uma personagem que narra suas experiências e descobertas, ocorridas desde a infância. A morte serve como mote para falar da vida; dos mistérios e encantos que vão sendo esquecidos, ou melhor, substituídos por outros mistérios, por novas respostas para inquietações tão antigas.


                O romance apresenta um número significativo de marcas autobiográficas, aspecto já presente no conto “Dona Lia”, de As camas e os cães. Ao intitulamos este texto de Lembranças e invenções, nada mais fizemos do que tomar emprestadas as palavras da escritora que, no posfácio do romance, discorre sobre o cruzamento entre experiência de vida e criação literária. Desse modo, a análise aqui realizada evidenciará como a literatura, ao se apropriar dos fragmentos da memória, cria a sua própria realidade, transformando personagens e situações empíricas, em elementos ficcionais autônomos.  
            O homem que sabia a hora de morrer é uma narrativa em primeira pessoa, cuja narradora apresenta alguns episódios familiares, enfatizando a vida de um de seus avôs, Lau Rodrigues. O motivo pelo qual ela se identificava mais com um dos avôs, é o fato de ter ouvido dizer que ele sabia a hora em que iria morrer: “Meu avô não gostava de falar da morte. Nem da dele nem da dos outros. Tinha medo. Respeitava. Da boca dele, mesmo, nunca ouvi que ele sabia a hora de morrer. Era a conversa que versava na família, mas eu nunca perguntei como era” (SOUZA, 2012, p. 67).
            Lau Rodrigues, quando menino, vendia banana na feira e, desde esta época, já nutria o desejo de saber o dia de sua morte, enquanto seu irmão sonhava em se tornar maçom e enriquecer: “Além do meu avô que sabia morrer, eu tinha um outro avô. E mais duas avós. Mas a natureza tinha feito uma injustiça muito grande com eles: nenhum dos três sabia a hora de sua morte. E ter uma dos avôs que sabia a hora de morrer eclipsava os outros três” (SOUZA, 2012, p. 70).
            Ele não era um avô qualquer, era especial. Carregava uma aura de mistério que encantava a neta: falava com Deus ao seu modo, entoando, na mata, orações e cantos desconhecidos. Seu conhecimento de mundo adquirido de forma empírica e não através das ciências, permitia-lhe estabelecer relações e explicar os fatos: “Dizia que não gostava de papel, de número e letra no papel. Gostava dos números na cabeça. Das palavras na memória. E que não era analfabeto porque sabia ler as coisas do mundo” (SOUZA, 2012, p. 94).  Assim, reconhecia a chegada da chuva ao observar a casa de cupins e o brejo de sapos; fazia suas contas de cabeça e nomeava as constelações ao seu modo.
            A neta partilhou diversos momentos da infância com o avô e cresceu tentando desvendar o misterioso fato de Lau Rodrigues saber a hora em que morreria, e herdar dele esse conhecimento. A maioria dos episódios narrados se passa na roça, onde o avô morava, e na cidade onde ela morou até completar treze anos, quando teve de mudar para Salvador, a fim de continuar os estudos. Antes de Lau Rodrigues morrer, a neta passou por uma experiência simbólica da morte, quando, aos treze anos, foi avisada de que ele abandonou a casa da família. Acreditando que o avô havia morrido, vivenciou o luto de tal maneira que não sofreu quando ele de fato morreu e ela já era adulta:

Meu avô morreu com um tiro de espingarda. Era uma espingarda de cano duplo. Nem fuzil, nem rifle, nem cartucheira, como o meu avô gostava de chamar. Era uma espingarda caçadeira. Descobri depois, num mostruário de armas. O meu avô morreu com as duas mãos agarradas nela. Como se, depois de morto, continuasse a dizer: é minha, a espingarda é minha, a morte é minha, ninguém pode tirá-la de mim. (SOUZA, 2012, p. 119)
           
Assassinato ou suicídio. O sonho da neta em herdar o conhecimento sobre o dia de sua morte não chegou a se realizar, ao contrário, gerou mais inquietações e questionamentos. A única certeza que ela demonstra é a de que “Uma pessoa que nem o meu avô, quando morre, nem tem dor. Até a sua morte era amor. O meu avô sabia” (SOUZA, 2012, p. 122).
Apesar de mesclar em seu texto referências culturais de sua cidade natal, Castro Alves; de o nome da narradora começar com a letra A, assim como o dela; de o personagem avô se chamar Lau Rodrigues, uma possível referência ao seu avô Laurentino, a quem o romance é dedicado; de o capítulo 10 trazer referências sobre um acidente de carro que a neta sofrera, acidente esse sofrido pela escritora em 2005, Adelice Souza não construiu um romance memorialista. Como ela mesma afirma, o livro “[...] é um brinquedo, como um jogo de cartas, onde todas as lembranças e invenções estão misturadas num caldeirão” (SOUZA, 2012, p. 124).
Sobre essa relação entre memória e criação literária, Leyla Perrone-Moisés (1990, p. 105) evidencia que “Narrar uma história, mesmo que ela tenha realmente ocorrido, é reinventá-la”. As lembranças são lacunares e já não acreditamos que a literatura imite o real. Ela é apenas uma entre outras possibilidades de representá-lo, partindo ou não de situações e imagens arquivadas em nossa memória. Desse modo, segundo o escritor e ensaísta Autran Dourado (2000, p. 95), “[...] os romancistas e novelistas, na sua modéstia e simpleza aparentes, sabem que usam do real com inteira liberdade [...] O criador amassa a realidade para criar uma outra realidade, uma realidade que obedece à geometria literária [...]”.
Certamente, foi obedecendo à geometria literária que Adelice Souza nos presenteou com o capítulo “Canto XIII- De volta para a casa”, o qual eu considero a melhor passagem do romance. Nesse capítulo, ela, que além de escritora é diretora teatral, utilizou dos conhecimentos mitológicos e de dramaturgia, para compor a cena em que o avô Lau presencia, pela primeira vez, uma apresentação teatral. A peça, uma adaptação da Odisseia, foi realmente dirigida por Adelice Souza quando ela trabalhou no Liceu de Artes e Ofício.
É um belíssimo episódio em que os mitos gregos e os orixás africanos representam o retorno de Odisseu para casa. Além disso, ela insere no texto teatral cantigas populares, trava-línguas, samba de roda, e outras canções do repertório brasileiro, todos esses elementos em total harmonia com o texto e em confluência com a nossa cultura. Nesse ponto do romance, a narradora presentifica, sem dúvida, a Adelice Souza diretora teatral e a escritora.  
            Em O homem que sabia a hora de morrer, Adelice Souza mostra-se plenamente capaz de assumir outra voz que não a da maioria de suas narrativas curtas. Essa narradorinha, que não perdeu a ternura infantil, nos faz relembrar de um tempo em que os adultos reuniam as crianças e contavam histórias mirabolantes; que o poder das folhas, das rezas e da sabedoria popular era valorizado.
            Quem olha para a imagem sombria da capa do livro, sequer pode imaginar que a escritora aborda a temática da morte de uma maneira tão delicada, fazendo-nos perceber o quanto não há vida sem morte. O livro é um romance e não uma biografia. O avô da escritora não sabia a hora de morrer e a morte do personagem não reflete a morte de seu Laurentino, mas sim, é uma homenagem ao escritor Hemingway.
            Nesse seu primeiro romance, Adelice Souza reelabora suas lembranças, preenche vazios com invenções, faz da vida literatura e da literatura vida. O primeiro capítulo apresenta o símbolo alfa, o que sugere o início de tudo, porém, o capítulo final não traz o ômega, símbolo do fim. Assim, podemos inferir que, para a escritora, a morte não é o fim, é “[...] somente uma ponte para o outro lado, uma ponte” (SOUZA, 2012, p. 120); que seu texto não acaba na última palavra, mas continua em cada leitor que se dispõe a folhear as páginas desse romance, desejando, talvez, compreender os mistérios da morte, a beleza da vida.
            Saudações a esse que será, provavelmente, o primeiro de muitos de seus romances e, como declara Affonso Romano de Sant’Ana na apresentação do livro: “Longa vida a esse texto e a Adelice.

Texto apresentado no Curso Castro Alves 2012- VII Colóquio de Literatura Baiana, realizado pela Academia de Letras da Bahia.

REFERÊNCIAS

DOURADO, Autran. Uma poética de romance: matéria de carpintaria. Ed. rev. e ampl.  Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
PERRONE-MOISÉS, Leyla. A criação do texto literário. In:_____. Flores da escrivaninha: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 100-110.
SOUZA, Adelice. O homem que sabia a hora de morrer. São Paulo: Escrituras Editora, 2012.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Uma década de amizade


Por Elis Franco

No ano em que completaria uma década de amizade entre elas, as coisas pareciam ruir, a certeza de que a distância nunca mudaria os seus sentimentos começava a desabar. E os últimos meses tinham sido difíceis para as duas: elas não se acertavam mais. Talvez a Mais Velha sentisse esta cisão de modo mais intenso, porque estava se aproximando a data em que comemoraria seu trigésimo terceiro aniversário natalício e, há muito tempo, uma ideia vinha lhe assaltando a mente: ela morreria aos trinta e dois anos. O que desencadeou uma sensação de desconforto entre elas foi o fato de a Mais Nova ter feito uma promessa que seria incapaz de cumprir. O pior: ultimamente a Mais Nova tinha tomado posse de uma ideia fixa e, por essa ideia, tinha sido capaz de ir a São Paulo, a Aracaju, mas não percorreu os cerca de cento e cinquenta quilômetros que a separava da Mais Velha.
A Mais Nova certamente não compreenderia a sensação de desamparo da Mais Velha. Como também não se lembraria de que, quando decidiu se mudar para a capital, a Mais Velha deixou a filha com a avó e foi passar a noite que antecedeu a mudança com ela, só para poder ficar um pouco mais perto. E será que a Mais Nova se recordava de que a Mais Velha, algum tempo depois de ela ter deixado o interior, foi capaz de, em um ônibus lotado e em companhia da filha, atravessar Salvador de um lado a outro só para lhe fazer uma visita? Não. Ela não se lembraria de quando a Mais Velha, após ter passado mais de doze horas de viagem, num processo de sobe e desce do avião – ela estava retornando do interior do Amazonas, após cinco dias distante do marido e das duas filhas –, saiu do aeroporto da capital diretamente para a casa da Mais Nova, onde permaneceria de quinta até a segunda-feira, só porque a Mais Nova implicou que queria ir a um show com ela. Sem contar que a Mais Nova havia prometido buscá-la no aeroporto e lá não apareceu. Mas, pela ideia fixa, lá foi ela certa vez, antes da virada do ano.
A Mais Velha ultimamente tinha deixado de acreditar em muita coisa. Assumira um lado irônico que jamais pensou que tivesse. O pior é que, mesmo não acreditando nestas conversas de signo, percebia que ser taurina não era uma tarefa fácil – os taurinos são ciumentos e, às vezes, ressentidos ao extremo. Mas, aquele lado doce, pacífico e conciliador da Mais Velha não havia desaparecido de todo. Por isso, ela não esqueceria nunca que a Mais Nova era o seu eu refletido no espelho. Um eu que nem sempre ela teve a coragem de assumir publicamente. A Mais Velha também não se esqueceria de que a Mais Nova desejava sempre compartilhar as melhores coisas e acontecimentos com ela. Que ao lado dela, assistira aos filmes mais interessantes de sua vida – ainda que fosse dispersa e levasse bronca da Mais Nova pela sua falta de atenção.
E como esquecer-se do bolo açucarado e do café forte preparado com tanto zelo? De Virgínia Woolf, Edith Piaf, Clarice Lispector e outras coisas boas que aprendera a admirar por causa dela? Não se esqueceria do quanto os olhos da Mais Nova brilharam no dia em que foram ao lançamento de um livro em que a Mais Velha havia publicado um artigo. Daquele 18 de fevereiro de 2011, quando a Mais Nova, em visita à sua casa, fora a primeira a anunciar que a Mais Velha havia passado na seleção do mestrado em Literatura, e as duas comemoram com um espumante. Do quanto riram e indignaram-se juntas. Conversaram sobre a existência ou não de Deus, sobre a dificuldade de estar no mundo.
Todas essas coisas vinham agora na cabeça da mais Velha. Ela se sentia horrível em seu ciúme, em sua insistência em deixar claro que a Mais Nova estava em dívida e precisava sofrer por isso. E o único modo de se libertar desse sentimento era transformar a linguagem que obscurecia sua mente em uma escrita que, certamente, não daria conta do que realmente sentia, mas aliviaria a tensão que a sufocava. Na verdade, a Mais Velha sabia que ultimamente estava meio estranha: poucos sonhos, apenas um desejo enorme de entregar-se às leituras literárias. Talvez, o que a Mais Velha não sabia era que toda a amargura e desencanto estava atrelada ao fato de acreditar que morreria aos trinta e dois anos, justamente no ano em que completaria uma década da amizade entre elas.