domingo, 22 de abril de 2018

Meu cartão de visitas


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Por Elis Franco

O mundo digital, sem sombra de dúvida, oferece-nos um espaço de sociabilidade, ainda que não presencial, incrível. Nossas redes sociais cumprem o papel de divulgarem o perfil que almejamos destacar, seja ele positivo ou negativo. Sejamos nós pessoas famosas ou não, certamente não estamos imunes ao olhar daqueles que nos acompanham, nos seguem e, de algum modo, inspiram-se em nós ou sentem uma dorzinha de cotovelo diante de nossas vivências e práticas.
            Há quem publique imagens, compartilhe pensamentos e faça comentários nas redes de modo arbitrário, sem levar em conta a profissão que exerce, o que é um direito de cada um, afinal, todos devem fazer de suas vidas o que acharem mais pertinente. Todavia, como as redes servem como nosso cartão de visitas, é bom estarmos atentos às consequências de apresentarmos uma perfil que contribua ou não para aquilo que esperamos ser notório em nós.
            Eu, por exemplo, busco usar minhas mídias sociais de modo a não esconder o que sou, o que gosto de fazer; as ideias que defendo e, além disso, partilhar um pouco de minha vida e experiências. Sou festeira, publico fotos das festas que vou; gosto de viajar, e lá se vão as imagens dos lugares por onde passo; alegro-me quando encontro meus amigos, registro estes momentos também. Sei que isso pode não interessar a muita gente, no entanto, caso as pessoas não gostem, é tão fácil deixar de seguir, não é?
            Para além do desejo narcisista de postar umas selfies, uma foto com aquele look da moda, aprendi a usar meu instagram e facebook para divulgar duas práticas norteadoras da minha existência: ler e ensinar. Estou em sala de aula desde 2013 e, de lá para cá, tenho buscado aperfeiçoar meu modo de promover a aprendizagem dos alunos e aprender com eles, desse modo, atrelado ao fato de ser uma leitora apaixonada, leio, leio muito, a fim de especializar-me no que faço. Neste sentido, sou socrática e, a cada dia, afirmo saber o quanto não sei quase nada ainda.
            Para minha felicidade, ensino literatura e produção de texto (não gosto do termo produção, mas por hora é o que tenho), assim, posso unir o útil ao agradável, lendo sem moderação, tanto para aprender mais quanto para ensinar melhor. Por isso, minhas redes são recheadas de atividades em sala de aula, às vezes elaboradas por mim, outras vezes inspiradas em práticas de colegas ou em livros lidos. Esse é o meu modo de fazer o saber circular, pois eu, muitas vezes, observo os bons exemplos de outros profissionais para aplicar com meus alunos. Não há por que ter medo de sermos copiados, já que nós também copiamos outras pessoas.
            Além das atividades em sala, posto as leituras que faço, visto que, para mim, é uma maneira de divulgar as obras para leitores iniciantes ou experientes que, a partir de então, podem pedi-las emprestadas a mim ou comprá-las. Na verdade, este é o meu modo de ajudar, ainda que seja de uma maneira pouco tradicional, a formar leitores, ou, como afirma o escritor e jornalista Gilberto Dimenstein, fazer uma curadoria de textos que considero interessantes, os quais podem agradar a alguns dos meus seguidores.
            Sei que para muitos isto é exibicionismo. Sei também que podem achar que não leio tudo que posto, mas eu, como não costumo atribuir ao outro aquilo que eu não sou capaz de fazer, prefiro achar que pensam desse modo por morarmos em um país onde o nível de leitura não é tão alto assim. Estão perdoados pelos julgamentos de valor pré-concebidos. Continuarei postando meus livrinhos, emprestando-os a quem os deseje, mas torcendo para que retornem ao meu convívio.
            No mais, aquilo que minhas redes exibem tem aberto caminhos para mim, não apenas profissionais, mas a aproximação com pessoas que têm interesses semelhantes e gostam de trocar ideias. Fico feliz quando alguém fala sobre minha paixão pelos livros; fico feliz quando me parabenizam por uma tarefa desenvolvida em sala de aula. Porém, o que me deixa mais contente é saber que há várias pessoas agindo igual a mim, e eu posso pescar umas dicas e ideias em suas redes verdadeiramente sociais.

Feira de Santana, 22 de abril de 2018
Micareta na cidade, mas optei pelo bloco da leitura.

sábado, 24 de março de 2018

Os livros e as ilusões



Por Elis Franco

“Se o sofrimento é inevitável, se os problemas da vida também o são, a pergunta que devemos fazer não é “Como paro de sofrer?”, e sim “Pelo que estou sofrendo? Com que propósito?”
Mark Manson

Quem me conhece sabe o quanto eu gosto muito de ler. Ler para mim é parte essencial da minha rotina e, assim como quem pratica um esporte, gosta de academia ou de jogar conversa fora, eu sempre dou um jeitinho de fazer minhas leituras semanais, por isso, carrego um livro na bolsa, lendo umas páginas sempre que é possível. Estar acompanhada por um livro me livra de ficar irritada na fila do banco, no consultório médico ou em qualquer outro espaço onde esperar é a regra.
Leio de tudo, sou desbloqueada para a leitura. Tenho interesse pelas diversas áreas do saber, assim, passo o olho em livros de temáticas interessantes, desde que não sejam muito técnicos. Mas eu percebo que há, por parte de alguns, certo preconceito pela leitura de livros considerados de autoajuda. E eu estou entre estes alguns, contudo, de um modo um tanto quanto maleável, pois só não curto mesmo os autores que tentam nos engabelar, querendo nos fazer crer que somos as criaturas mais especiais do universo, bastando pensar positivo e agir que o mundo sorrirá para nós.
Recentemente, dentro da linha de autoajuda, encontrei dois livros que me chamaram atenção. O primeiro é O ego é seu maior inimigo, de Ryan Holiday, classificado como “administração pessoal”. O segundo é A sutil arte de ligar o foda-se, de Mark Manson, descrito como sendo “autorrealização. Daí fiquei pensando que há uma autoajuda mais água com açúcar, esta que diz que tudo é lindo e fomos feitos para sermos vitoriosos, assim como afirmam certos líderes religiosos, e outra que nos dá um choque de realidade, fazendo-nos crer que não somos esta Coca-Cola toda que imaginamos.
            Holiday, por exemplo, afirma que “Quase sem exceção, é isto que a vida faz: pega nossos planos e os rasga em mil pedacinhos. Em alguns casos, só uma vez. Em outros, várias”. Quem de nós já não viu nossos planos serem desintegrados de uma hora para outra e achou a maior injustiça do mundo? Pois é, viver não tem muita lógica e, por mais que tentemos alinhar nossos passos, há momentos em que o trem descarrilha e o jeito é juntar os cacos, quando isso é possível.
            Manson, por sua vez, postula “que estamos enfrentando uma epidemia de cegueira psicológica que faz as pessoas não enxergarem que é normal as coisas darem errado de vez em quando”. Na minha e na sua vida, certamente, inúmeras coisas deram certo, às vezes até sem termos planejado. Mas tantas outras nos fizeram crer que éramos fracassados, pois vivemos em uma cultura que valoriza o sucesso a todo custo, um padrão de vida de certas pessoas famosas que contam apenas seus acertos, suas conquistas, sem deixar evidente quantos desafios enfrentaram para chegarem onde chegaram.
            Vencendo meu preconceito, pude perceber o quanto determinadas obras, best-seller ou não, podem, de algum modo, melhorar a nossa capacidade de lidar consigo e com o outro. É preciso, porém, fazer uma triagem e não acreditar em tudo quanto é coach, esta raça que tem se espalhando pelo mundo, pagando um diploma nas “uniesquinas” e sem ter um mínimo de noção do que é a vida real.
            Falando em coach, certa vez, fui a um evento de formação de professores, e uma criatura dessas pediu para fecharmos os olhos e imaginarmos algo que gostaríamos de possuir. Apesar de não gostar dessas babaquices, fechei os meus, pois não queria ser do contra. Quando estava começando a pensar no meu desejo, o infeliz gritou de lá, dizendo da possibilidade de termos uma Ferrari na garagem. Fiquei enfurecida e não consegui pensar em mais nada.
Quando a palhaça terminou, ele pediu para que falássemos no que pensamos, já que, de acordo com a sua teoria, podemos concretizar tudo que criamos na mente. Desta vez, porém, fui do contra e afirmei não ter pensado em nada, pois o desejo que ele tinha para si atrapalhou a manifestação do meu desejo, que nada tinha a ver com carro de luxo, sobretudo nas maravilhosas estradas brasileiras.
Pensando nesta coisa de a vida ser boa, dos deuses, sejam eles quais forem, estarem ao lado de seus eleitos, creio que a nossa melhor autoajuda será tentar nos reencontrarmos em meio ao caos, assumindo certa dose de pessimismo que nos ponha em alerta para os desacertos possíveis. E assim como Manson, também acredito que “Nem sempre dá para controlar o que acontece conosco, mas sempre podemos definir nossa interpretação dos acontecimentos e nossa relação a eles”. Isto é autorrealização. E pouco tem a ver com aquisição de fama, bens materiais ou poder.

Feira de Santana, 24 de março de 2018
Refletindo sobre minhas perdas e ganhos.


sábado, 27 de janeiro de 2018

Aprendendo com a Lua


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Por Elis Franco

Uma pessoa inteligente deve sempre se lembrar
dos limites do próprio poder e alcance.
Ryan Holiday

A Lua tem fases. É preciso aprender com ela. Ao contemplarmos cada ciclo, cada transmutação desse satélite, caso prestemos bem atenção, ele nos deixa uma bela lição: há momentos em que é necessário ceder espaço, esconder-se;  em outros, cabe-nos iluminar os lugares onde estamos inseridos, feito lua cheia. Cada tempo pede recolhimento ou abertura, proatividade ou certa dose de passividade. A Lua não deixa de ser Lua quando permite um maior ou menor espelhamento da luz solar. Parceiros, Sol e Lua vivem o jogo do ocultamento e revelação, e ambos cumprem sua função no universo: tornar dias e noites mais iluminados.
No entanto, infelizmente, nós nem sempre sabemos vivenciar a parceria. Nosso ego, às vezes, impulsiona-nos a querer “aparecer” mais do que o outro, a não aceitarmos o jogo do espelhamento, colaborando para que uma ação, uma prática, uma criação não nossa deixe de ser refletida através de nós. Isso ocorre em diversos âmbitos em que o trabalho em equipe se faz necessário, seja em um time de futebol, na política ou em outras relações partilhadas. Assim, tendemos a fazer “minguar” gestos, ações e esforços apenas por não suportarmos celebrar a vitória de alguém que conosco convive, ainda que essa vitória não signifique a nossa derrota.
Em certas situações, é preciso recuar, não por incapacidade, mas porque há outros indivíduos tão capazes quanto nós e que precisam de abertura para atuar. Nosso auxílio a um projeto pode ser realizado nos bastidores e, ainda assim, sermos aquela mão impulsionando para a fase crescente, a qual culminará em um brilhante resultado. Cabe, portanto, reconhecer nossos momentos lua nova, quando deixamos de ser percebidos, porém, lá na frente, voltarmos a captar a atenção de todos que se deleitam com o esplendor luminoso de nossas ações reveladas.
Todas as vezes, em qualquer atividade não individual, que a cooperação é deixada de lado, corre-se o risco de ou fracassar imediatamente ou, ainda que tudo dê certo por algum tempo, colaborarmos para o fortalecimento de pessoas com o ego inflado, capazes de achar que são imbatíveis sozinhas. Um time, por exemplo, que deposita sua confiança  em um ou dois atletas e se esquece de preparar e confiar nos demais, certamente, não estará tão preparado quanto aquele que investe no conjunto, dando a cada um a oportunidade de colaborar para a execução da tarefa.
Existe uma frase atribuída a Chico Xavier que diz: “Tudo que é seu encontrará uma maneira de chegar até você”. Eu completaria: tudo que é nosso, caso façamos nossa parte de maneira íntegra, sem atropelar ou prejudicar o outro, além de chegar, permanecerá. Portanto, sejamos como a Lua e cumpramos as nossas fases de ocultamento e revelação. Espelhemos, também, os outros sóis que brilham ao nosso redor, pois concluir a caminhada ao lado de alguém é bem melhor do que não ter com quem brindar a vitória caso ela seja alcançada.

                                                                                    Várzea da Roça/Ba, 20 de janeiro de 2018
   Iniciei a escrita observando a Lua.
Feira de Santana, 23 de janeiro de 2018.
  Concluí o texto desejando muito aprender com a Lua.

  

sábado, 20 de janeiro de 2018

Em minha cama deita quem eu quero


Por Elis Franco

Não era mais uma menina com um livro:
Era uma mulher com o seu amante”
Clarice Lispector

A propósito da cama, esse lugar para muitos tão íntimo e sagrado, estive refletindo um pouco estes dias. Na verdade, eu estava conversando com minha filha de quinze anos sobre relacionamentos, o quanto eu, ao imaginar que terei que dividir meu guarda-roupa, repenso se quero ou não brincar de ser casada novamente. Além disso, falamos sobre outras questões das quais não me recordo agora.
Houve um momento da conversa que disparei: em minha cama, deita quem eu quero! Homem, mulher, brasileiro, estrangeiro, não importa a condição sexual do indivíduo. Claro que fui obrigada a explicar-lhe a minha colocação, pois, assim como você deve estar pensando agora, ela deve ter imaginado um monte de bobagens. Na verdade, eu havia feito uma brincadeira, comparando uma paixão entre duas pessoas com a paixão que eu tenho pelos livros.
Naquela hora, veio-me à cabeça o fato de minha cama estar sempre tomada por livros, já que não consigo ler um por vez. Misturo leituras, leio ficção, filosofia, poesia e tudo mais que sentir vontade. Meus queridinhos não ficam magoados quando eu enjoo da monotonia de um deles e busco uma leitura mais empolgante; de repente eu não comungo com o que um outro me diz e jogo-o de lado; olho para o outro que me olha e seduz, abandonanando, assim, o anterior. E sabe qual é o resultado disso? De uma forma ou de outra eu consigo ler todos, cada um em um ritmo diferenciado, tentando vencer os desafios que me são impostos.
Em termos de relacionamentos amorosos, bem que a lógica que eu opero com os livros deveria ser válida. Todavia, quem de nós considera-se preparado para ser colocado de lado até quando o parceiro ou quase parceiro decidir que quer continuar decifrando nossas páginas? Apesar da diversidade dos relacionamentos afetivos atuais, lidar com um tipo de negociação dessa não é fácil. E eu não relacionei cama e livro de modo despropositado.
O que eu quero, na verdade, é refletir sobre duas questões interessantes. A primeira diz respeito a por que a vida afetiva/sexual de alguém pode ser motivo de preocupação geral, lembrando aqui Caetano Veloso e o seu “Todo mundo quer saber com quem você se deita”. As páginas de fofocas estão repletas de casos de sepração ou ínicios de relacionamentos, e isso vende pra caramba. No mais, quantos de nós já fizemos aquele comentário sobre quem “pega” quem;  quem, de fato, merecia “ficar” com quem? Esqueçamos a contagem.
Para unir as pontas desta conversa, quero falar sobre livros. A leitura foi e continua sendo elitizada em nosso país e, desde sempre, há aqueles que se sentem no direito de legitimar o que deve ou não ser lido, o que é ou não uma boa leitura, sobretudo quem, como eu, gosta muito dos textos clássicos. Porém, talvez esteja na hora de deixarmos de ser tão preconceituosos com as leituras alheias e buscarmos outros mecanismos para colaborarmos com a ampliação de repertório dos leitores que estão próximos a nós.
Ao longo dos anos, criei, por decisão própria − o que é muito difícil − ou por influência de professores e amigos, o meu repertório de leituras. Leio o que gosto; leio o que não gosto, mas considero ser importante ler; leio por deleite ou porque preciso aprender alguma coisa. Nossas leituras são caminhos que vamos percorrendo, às vezes sem refletir muito, outras, com uma finalidade estabelecida. Cada indivíduo tem necessidade diferente e sente-se preenchido com as leituras que faz. Assim, não custa nada patilhar os saberes sem impor, afinal, estamos operando com subjetividades.
Estou aprendendo a agir dessa maneira, pois, se em minha cama deita quem eu quero, nos dois sentidos abordados, por que eu tenho que ser fiscal de quem põe em sua cama quem deseja? Cama, livros e amores... ponha-os onde desejar. No caso dos livros, a monogamia limita-nos; no caso dos amores, ela é desejada por muitos, ainda que nem sempre cumprida.

Feira de Santana, 10 de janeiro de 2018
Em férias, de ouvido antenado ao que falo e falam aqueles que me cercam.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Estou indo...


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Por Elis Franco

Existem pessoas que estão sempre indo. Minha filha é uma delas. Geralmente,  quando eu lhe peço para fazer algo, ouço de lá o grito “estou indo! Porém, é certo que permanecerá no mesmo lugar, até que eu me certifique se, de fato, a tarefa solicitada foi realizada. Eu até já me acostumei com o seu jeito, com a forma como administra o tempo, como só faz rapidamente aquilo que é de seu total interesse. Seria muito bom se pudéssemos agir assim em todas as situações da vida, porém, nem sempre o nosso ritmo condiz com as decisões urgentes que precisamos tomar.
            Quantos não são, por exemplo, os momentos da vida em que precisávamos escutar um primeiro chamado e partir sem pestanejarmos? Aquele momento em que a saúde reclama e é necessário fazer uma atividade física, contudo, estamos sempre indo na próxima segunda-feira; aquele amigo ou parente que precisamos visitar e estamos sempre indo no próximo final de semana; o desejo de fazer um curso, de ampliarmos os conhecimentos, no entanto, estamos sempre indo quando sobrarem tempo e dinheiro. 
            Estar sempre indo me lembra as atendentes de telemarketing. Fico com a impressão de que algo dará errado, demorará, a ligação cairá. Ouço a vozinha dizendo “estarei encaminhando sua solicitação para o setor responsável”. O grande problema é que há questões na vida cuja ação não pode ser protelada, pois corre-se o risco de não se poder mais conjugar o pretério perfeito fui e fizHá decisões que não podem ser encaminhadas a nenhum setor responsável, não há como transferir a culpa. Estar sempre indo só faz sentido quando a ação exige o presente contínuo, constância.
            Conheço várias pessoas que passaram a vida afirmando que iriam fazer algo, realizar uma tarefa, investir num desejo antigo, mas, ao final, nunca conseguiram presentificar as vontades, faltou empolgação, entusiasmo. Não estou falando daquelas vitimadas pela falta de oportunidade, pelas intempéries que impossibilitaram o avanço, mas de todas as que, tendo o anzol na mão, optaram por apenas olharem o outro pescar, morrendo de fome quando se tinha o alimento tão perto. Pior: atribuíram ao outro a causa de sua não realização.
            É sempre bom criarmos metas, estipularmos prazos, revermos os desejos. Entretanto, de que adianta desejo sem busca, planejamento sem execução de estratégia? De que adianta sonhar um sonho possível e deixá-lo escapar por comodismo? Na medida do possível, não esteja sempre indo, vá; prontifique-se ao chamado que a vida faz, seja sendo presença, realizando ações simples ou extraordinárias. Eu, assim como Guimarães Rosa, “Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente a fazer tantos atos, dar corpo ao suceder”.
            Um dia eu sonhei em publicar um livro, o que me pareceu muito distante. Então, ao invés de pensar na dificuldade de publicá-lo, passei a tentar superar o desafio que é escrever. Comecei pelos poemas, depois pelos contos e crônicas. Meu livro de crônicas está sendo gestado. Meus poemas e contos estão publicados em antologias. Não sei se são bons. Não importa. O que importa é que um dia eu disse que estava indo brincar com as palavras. E fui.
Nunca sonhei grandezas, apenas fui fazendo, entusiasmando-me. Pelo menos, nesse caso, não direi um dia: deveria ter ido, deveria ter feito. Eu fui e fiz. Os julgamentos de valor... isso já é outra história. Luto todo dia para, no final da vida, não precisar cantar como os Titãs: “Devia ter amado mais/Ter chorado mais/Ter visto o sol nascer/Devia ter arriscado mais/E até errado mais/Ter feito o que eu queria fazer”.

Feira de Santana, 09 de janeiro de 2018

Aproveitando a fala da filha como mote para escrever.