sábado, 20 de janeiro de 2018

Em minha cama deita quem eu quero


Por Elis Franco

Não era mais uma menina com um livro:
Era uma mulher com o seu amante”
Clarice Lispector

A propósito da cama, esse lugar para muitos tão íntimo e sagrado, estive refletindo um pouco estes dias. Na verdade, eu estava conversando com minha filha de quinze anos sobre relacionamentos, o quanto eu, ao imaginar que terei que dividir meu guarda-roupa, repenso se quero ou não brincar de ser casada novamente. Além disso, falamos sobre outras questões das quais não me recordo agora.
Houve um momento da conversa que disparei: em minha cama, deita quem eu quero! Homem, mulher, brasileiro, estrangeiro, não importa a condição sexual do indivíduo. Claro que fui obrigada a explicar-lhe a minha colocação, pois, assim como você deve estar pensando agora, ela deve ter imaginado um monte de bobagens. Na verdade, eu havia feito uma brincadeira, comparando uma paixão entre duas pessoas com a paixão que eu tenho pelos livros.
Naquela hora, veio-me à cabeça o fato de minha cama estar sempre tomada por livros, já que não consigo ler um por vez. Misturo leituras, leio ficção, filosofia, poesia e tudo mais que sentir vontade. Meus queridinhos não ficam magoados quando eu enjoo da monotonia de um deles e busco uma leitura mais empolgante; de repente eu não comungo com o que um outro me diz e jogo-o de lado; olho para o outro que me olha e seduz, abandonanando, assim, o anterior. E sabe qual é o resultado disso? De uma forma ou de outra eu consigo ler todos, cada um em um ritmo diferenciado, tentando vencer os desafios que me são impostos.
Em termos de relacionamentos amorosos, bem que a lógica que eu opero com os livros deveria ser válida. Todavia, quem de nós considera-se preparado para ser colocado de lado até quando o parceiro ou quase parceiro decidir que quer continuar decifrando nossas páginas? Apesar da diversidade dos relacionamentos afetivos atuais, lidar com um tipo de negociação dessa não é fácil. E eu não relacionei cama e livro de modo despropositado.
O que eu quero, na verdade, é refletir sobre duas questões interessantes. A primeira diz respeito a por que a vida afetiva/sexual de alguém pode ser motivo de preocupação geral, lembrando aqui Caetano Veloso e o seu “Todo mundo quer saber com quem você se deita”. As páginas de fofocas estão repletas de casos de sepração ou ínicios de relacionamentos, e isso vende pra caramba. No mais, quantos de nós já fizemos aquele comentário sobre quem “pega” quem;  quem, de fato, merecia “ficar” com quem? Esqueçamos a contagem.
Para unir as pontas desta conversa, quero falar sobre livros. A leitura foi e continua sendo elitizada em nosso país e, desde sempre, há aqueles que se sentem no direito de legitimar o que deve ou não ser lido, o que é ou não uma boa leitura, sobretudo quem, como eu, gosta muito dos textos clássicos. Porém, talvez esteja na hora de deixarmos de ser tão preconceituosos com as leituras alheias e buscarmos outros mecanismos para colaborarmos com a ampliação de repertório dos leitores que estão próximos a nós.
Ao longo dos anos, criei, por decisão própria − o que é muito difícil − ou por influência de professores e amigos, o meu repertório de leituras. Leio o que gosto; leio o que não gosto, mas considero ser importante ler; leio por deleite ou porque preciso aprender alguma coisa. Nossas leituras são caminhos que vamos percorrendo, às vezes sem refletir muito, outras, com uma finalidade estabelecida. Cada indivíduo tem necessidade diferente e sente-se preenchido com as leituras que faz. Assim, não custa nada patilhar os saberes sem impor, afinal, estamos operando com subjetividades.
Estou aprendendo a agir dessa maneira, pois, se em minha cama deita quem eu quero, nos dois sentidos abordados, por que eu tenho que ser fiscal de quem põe em sua cama quem deseja? Cama, livros e amores... ponha-os onde desejar. No caso dos livros, a monogamia limita-nos; no caso dos amores, ela é desejada por muitos, ainda que nem sempre cumprida.

Feira de Santana, 10 de janeiro de 2018
Em férias, de ouvido antenado ao que falo e falam aqueles que me cercam.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Estou indo...


Resultado de imagem para indecisão
Por Elis Franco

Existem pessoas que estão sempre indo. Minha filha é uma delas. Geralmente,  quando eu lhe peço para fazer algo, ouço de lá o grito “estou indo! Porém, é certo que permanecerá no mesmo lugar, até que eu me certifique se, de fato, a tarefa solicitada foi realizada. Eu até já me acostumei com o seu jeito, com a forma como administra o tempo, como só faz rapidamente aquilo que é de seu total interesse. Seria muito bom se pudéssemos agir assim em todas as situações da vida, porém, nem sempre o nosso ritmo condiz com as decisões urgentes que precisamos tomar.
            Quantos não são, por exemplo, os momentos da vida em que precisávamos escutar um primeiro chamado e partir sem pestanejarmos? Aquele momento em que a saúde reclama e é necessário fazer uma atividade física, contudo, estamos sempre indo na próxima segunda-feira; aquele amigo ou parente que precisamos visitar e estamos sempre indo no próximo final de semana; o desejo de fazer um curso, de ampliarmos os conhecimentos, no entanto, estamos sempre indo quando sobrarem tempo e dinheiro. 
            Estar sempre indo me lembra as atendentes de telemarketing. Fico com a impressão de que algo dará errado, demorará, a ligação cairá. Ouço a vozinha dizendo “estarei encaminhando sua solicitação para o setor responsável”. O grande problema é que há questões na vida cuja ação não pode ser protelada, pois corre-se o risco de não se poder mais conjugar o pretério perfeito fui e fizHá decisões que não podem ser encaminhadas a nenhum setor responsável, não há como transferir a culpa. Estar sempre indo só faz sentido quando a ação exige o presente contínuo, constância.
            Conheço várias pessoas que passaram a vida afirmando que iriam fazer algo, realizar uma tarefa, investir num desejo antigo, mas, ao final, nunca conseguiram presentificar as vontades, faltou empolgação, entusiasmo. Não estou falando daquelas vitimadas pela falta de oportunidade, pelas intempéries que impossibilitaram o avanço, mas de todas as que, tendo o anzol na mão, optaram por apenas olharem o outro pescar, morrendo de fome quando se tinha o alimento tão perto. Pior: atribuíram ao outro a causa de sua não realização.
            É sempre bom criarmos metas, estipularmos prazos, revermos os desejos. Entretanto, de que adianta desejo sem busca, planejamento sem execução de estratégia? De que adianta sonhar um sonho possível e deixá-lo escapar por comodismo? Na medida do possível, não esteja sempre indo, vá; prontifique-se ao chamado que a vida faz, seja sendo presença, realizando ações simples ou extraordinárias. Eu, assim como Guimarães Rosa, “Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente a fazer tantos atos, dar corpo ao suceder”.
            Um dia eu sonhei em publicar um livro, o que me pareceu muito distante. Então, ao invés de pensar na dificuldade de publicá-lo, passei a tentar superar o desafio que é escrever. Comecei pelos poemas, depois pelos contos e crônicas. Meu livro de crônicas está sendo gestado. Meus poemas e contos estão publicados em antologias. Não sei se são bons. Não importa. O que importa é que um dia eu disse que estava indo brincar com as palavras. E fui.
Nunca sonhei grandezas, apenas fui fazendo, entusiasmando-me. Pelo menos, nesse caso, não direi um dia: deveria ter ido, deveria ter feito. Eu fui e fiz. Os julgamentos de valor... isso já é outra história. Luto todo dia para, no final da vida, não precisar cantar como os Titãs: “Devia ter amado mais/Ter chorado mais/Ter visto o sol nascer/Devia ter arriscado mais/E até errado mais/Ter feito o que eu queria fazer”.

Feira de Santana, 09 de janeiro de 2018

Aproveitando a fala da filha como mote para escrever.

domingo, 7 de janeiro de 2018

A segunda lição sobre o amor


Resultado de imagem para amor desfeito


Por Elis Franco

“Mas, se o viço do amor perder o brilho,
não sou platônico: te deixo e pronto.”

Luís Antonio Cajazeiras Ramos

“Eu pensando em ter você
Pelo tempo que durar”

Adriana Calcanhoto e Marisa Monte

Em 2015, escrevi um texto cujo título é “A primeira lição sobre o amor”, na tentativa de registrar um diálogo que tive com minha filha de cinco anos, quando esta me perguntou se poderia ficar para sempre com um bichinho chamado “soldadinho”. Resumindo, numa conversa bem leve, mostrei para ela que poderia ficar, mas não deveria aprisioná-lo, pois o para sempre deveria durar até o momento em que ele desejasse, ou seja, seria infinito enquanto durasse.
Naquele momento, estava eu tentando ensinar-lhe sobre este sentimento tão ambíguo que é o amor, julgando-me compreendê-lo bem, visto que este foi o tema de minha dissertação de mestrado. Na verdade, ao ensiná-la, era a mim que ensinava; eu precisava acreditar no que dizia. Acreditar eu até acreditava e acredito, porém, o mais difícil é permitir que alguém especial, cuja presença significa muito,  parta de nossas vidas.
Eu já li e leio sobre o amor, defendo, inclusive, a desconstrução do amor romântico, da ideia de que há uma metade da laranja nossa perdida pelo universo, como quis Platão ao narrar o mito do andrógino, e que apenas ao lado dela seremos eternamente felizes. Certa vez, ao conversar com um colega sobre esse tema, cheguei a afirmar que somos capazes de amar duas pessoas ao mesmo tempo, por razões diferentes, sem desejar perder nenhuma delas, como na letra interpretada por Marisa Monte, “Amar alguém e outro alguém também/ É coisa que acontece sem razão”. Ele, porém, disse-me que era impossível, pois caso as duas estivessem afogando-se, seria necessário decidir salvar apenas uma e, claro, seria salva a que fosse mais amada.
Aquela reflexão desestabilizou minhas certezas. Será que não há como amar duas pessoas ao mesmo tempo? Ou melhor, será que  não há como amar, com a mesma intensidade, duas pessoas? Sei apenas o quanto não é fácil definir esse sentimento... não há mesmo como defini-lo sem limitá-lo. Contudo, tentei, outro dia, expressar, por meio de versos,  o que seria o amor : “Amor é repousar a cabeça/pensando na eternidade:/(esse sonho infantil)./É escolher permanecer/por gratidão, tesão, ou/ − quem sabe – sentimento./ Ou por tudo isso reunido, /ou por nada disso: amar é/insondável profundidade.”
Em matéria de amor, cada pessoa tem sua história, não há receita. Para alguns, o amor malsucedido é devastador, deixa marcas difíceis de superar. Para outros, porém, “Se a madrugada hesita num desmaio,/ um novo amor convido para a dança”, como cantam os versos do poeta Cajazeiras Ramos. Penso que, qualquer que seja a definição para o sentimento que invade e aproxima dois seres, é imperioso vivê-lo intensamente, não permitindo que os vestígios de relacionamentos anteriores assombrem o momento presente.
Talvez, a melhor definição para o amor seja “o indefinido”. De nada adianta querer compreender as suas “sem” razões de existir. O melhor, de fato, é aprendermos a nadar, a enfrentarmos as ondas agitadas do mar do amor, pois nunca se sabe se seremos a pessoa escolhida para ser salva no momento das intempéries.
Que todo amor seja amor apesar de... Que todo amor seja amor para além de... Que todo amor seja apenas amor, enquanto for permitido ser. E caso algo dê errado pelo caminho, sentir o baque é natural, sofrer aquele aperto no coração também. Mas, depois, ouça Marisa cantando “Quero que você seja feliz/ Hei de ser feliz também”, ou outro estilo desejado. Afinal, esta história de alma gêmea e tampa da panela já está meio desacreditada, não é?

Feira de Santana, 07 de janeiro de 2018
Um dia como outro qualquer, após ouvir uma história de amor muito complicada.
                 

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Memórias de mim quando eu partir


Resultado de imagem para legados

Por Elis Franco
  
Há palavras que geram em mim sensações contraditórias. O termo “legado” é uma delas. Gosto dessa palavra quando penso em tudo o que tenho capacidade de aprender com quem já cumpriu a sua sina sobre a terra. Quanta coisa importante foi construída, descoberta e perpetuada? Quantos nomes fazem parte da nossa história política, artística e científica? Quanta beleza perderia o mundo sem os monumentos materiais e imateriais que existem em todas as culturas?
            Sinceramente, deve ser bom, enquanto vivos, termos a dimensão de que se cria, se descobre e se projeta algo que mudará o pensamento e a prática de uma comunidade, seja ela local ou mais ampla. Deve ser maravilhoso imaginar nosso nome escrito nos anais das civilizações, as homenagens em vida ou póstumas; os elogios pela nossa capacidade intelectual ou criativa. Mas, afinal, qual o preço a pagar quando deixar um legado torna-se uma obsessão?
            Nesse sentido, essa palavra me causa estranheza, sobretudo quando alguns acreditam que é obrigatoriedade do humano deixar sua marca para a posteridade. Ou melhor, não é isso. O que me causa estranheza é o que as pessoas consideram legados passíveis de serem perpetuados. O legado é uma memória que se quer viva, vivíssima. Porém, quem legitima o que deve ser perpetuado ou esquecido? A partir de quais critérios de validação?
            Fico imaginando se alguém que teve uma vida simples, que não se tornou um escultor, um escritor, um músico, um cientista, um pintor, um bom político, um artista em diferentes áreas, se uma pessoa assim não é capaz de gerar uma memória a ser preservada. Muitos até se envergonham, pois acreditam, dentro do padrão que parte da sociedade estabelece, terem falhado na sua missão humana, visto não fazerem parte dos considerados prodigiosos, das mentes pensantes.
            O legado não deve ser a finalidade do viver. As nossas marcas, criações e saberes não serão nossos quando partirmos, ainda que nossos nomes sejam perpetuados. A ação, a criação, o pensar, sim, devem mover as nossas vidas. O quanto isso pode ser útil para facilitar a vida de alguém, para proporcionar um prazer estético, é a principal razão de ser; até quanto tempo isso durará,  já é uma outra questão. Qual memória de nós, para além do que é ditado, podemos deixar quando partirmos?
            Talvez o afago e o carinho para um filho, amigo ou estranho; aquele café bem feito e cordialmente servido no setor do trabalho; o jardim bem cuidado, exalando aromas de flores; a saudação matinal para o porteiro do prédio; o ouvido atento e a palavra certa, na hora certa. Quais memórias de cidadãos e cidadãs “comuns” marcam nossa existência? Se nos marcaram, tentemos preservá-las, claro, repetindo-as. Eis o nosso principal legado.


02/01/18

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Lembranças e invenções: Adelice Souza e seu primeiro romance

Esta estória não é minha, mas também não é alheia. 
(Adelice Souza)




O primeiro contato que tive com a prosa de Adelice Souza foi em 2010, quando cursava a Especialização em Estudos Literários, na Universidade Estadual de Feira de Santana. Lembro-me quando o professor Dr. Roberto Henrique Seidel propôs à turma a leitura de alguns livros, entre os quais estava As camas e os cães (2001), da referida escritora. Como nutro uma grande paixão por contos e o título dessa obra soou-me provocativo e inusitado, decidi escolhê-la. Assim, nove anos após o lançamento, fui seduzida por aquela primeira publicação de Adelice Souza, o que me levou a enviar-lhe um e-mail, parabenizando sua contística.
Posteriormente, obtive não apenas a resposta do e-mail, mas recebi pelo correio seus outros dois livros: Caramujos zumbis (2003) e Para uma certa Nina  (2009). A leitura atenciosa de seus contos resultou em um trabalho de final de curso, ao qual denominei A linguagem do desejo: erotismo e feminino em contos de Adelice Souza (2011). Nele, busquei analisar a linguagem erótica, as metáforas e encenações de Eros, destacando o papel feminino no exercício da sexualidade.  
Após ter publicado três livros de contos e participado de quatro coletâneas, a premiada escritora, baiana da cidade de Castro Alves, lançou em 2012 o seu primeiro romance, O homem que sabia a hora de morrer. Através de uma narradora que, mesmo adulta, apresenta a agilidade e alegria infantis/juvenis, a escritora consegue abordar com leveza a temática da morte, por meio de uma personagem que narra suas experiências e descobertas, ocorridas desde a infância. A morte serve como mote para falar da vida; dos mistérios e encantos que vão sendo esquecidos, ou melhor, substituídos por outros mistérios, por novas respostas para inquietações tão antigas.


                O romance apresenta um número significativo de marcas autobiográficas, aspecto já presente no conto “Dona Lia”, de As camas e os cães. Ao intitulamos este texto de Lembranças e invenções, nada mais fizemos do que tomar emprestadas as palavras da escritora que, no posfácio do romance, discorre sobre o cruzamento entre experiência de vida e criação literária. Desse modo, a análise aqui realizada evidenciará como a literatura, ao se apropriar dos fragmentos da memória, cria a sua própria realidade, transformando personagens e situações empíricas, em elementos ficcionais autônomos.  
            O homem que sabia a hora de morrer é uma narrativa em primeira pessoa, cuja narradora apresenta alguns episódios familiares, enfatizando a vida de um de seus avôs, Lau Rodrigues. O motivo pelo qual ela se identificava mais com um dos avôs, é o fato de ter ouvido dizer que ele sabia a hora em que iria morrer: “Meu avô não gostava de falar da morte. Nem da dele nem da dos outros. Tinha medo. Respeitava. Da boca dele, mesmo, nunca ouvi que ele sabia a hora de morrer. Era a conversa que versava na família, mas eu nunca perguntei como era” (SOUZA, 2012, p. 67).
            Lau Rodrigues, quando menino, vendia banana na feira e, desde esta época, já nutria o desejo de saber o dia de sua morte, enquanto seu irmão sonhava em se tornar maçom e enriquecer: “Além do meu avô que sabia morrer, eu tinha um outro avô. E mais duas avós. Mas a natureza tinha feito uma injustiça muito grande com eles: nenhum dos três sabia a hora de sua morte. E ter uma dos avôs que sabia a hora de morrer eclipsava os outros três” (SOUZA, 2012, p. 70).
            Ele não era um avô qualquer, era especial. Carregava uma aura de mistério que encantava a neta: falava com Deus ao seu modo, entoando, na mata, orações e cantos desconhecidos. Seu conhecimento de mundo adquirido de forma empírica e não através das ciências, permitia-lhe estabelecer relações e explicar os fatos: “Dizia que não gostava de papel, de número e letra no papel. Gostava dos números na cabeça. Das palavras na memória. E que não era analfabeto porque sabia ler as coisas do mundo” (SOUZA, 2012, p. 94).  Assim, reconhecia a chegada da chuva ao observar a casa de cupins e o brejo de sapos; fazia suas contas de cabeça e nomeava as constelações ao seu modo.
            A neta partilhou diversos momentos da infância com o avô e cresceu tentando desvendar o misterioso fato de Lau Rodrigues saber a hora em que morreria, e herdar dele esse conhecimento. A maioria dos episódios narrados se passa na roça, onde o avô morava, e na cidade onde ela morou até completar treze anos, quando teve de mudar para Salvador, a fim de continuar os estudos. Antes de Lau Rodrigues morrer, a neta passou por uma experiência simbólica da morte, quando, aos treze anos, foi avisada de que ele abandonou a casa da família. Acreditando que o avô havia morrido, vivenciou o luto de tal maneira que não sofreu quando ele de fato morreu e ela já era adulta:

Meu avô morreu com um tiro de espingarda. Era uma espingarda de cano duplo. Nem fuzil, nem rifle, nem cartucheira, como o meu avô gostava de chamar. Era uma espingarda caçadeira. Descobri depois, num mostruário de armas. O meu avô morreu com as duas mãos agarradas nela. Como se, depois de morto, continuasse a dizer: é minha, a espingarda é minha, a morte é minha, ninguém pode tirá-la de mim. (SOUZA, 2012, p. 119)
           
Assassinato ou suicídio. O sonho da neta em herdar o conhecimento sobre o dia de sua morte não chegou a se realizar, ao contrário, gerou mais inquietações e questionamentos. A única certeza que ela demonstra é a de que “Uma pessoa que nem o meu avô, quando morre, nem tem dor. Até a sua morte era amor. O meu avô sabia” (SOUZA, 2012, p. 122).
Apesar de mesclar em seu texto referências culturais de sua cidade natal, Castro Alves; de o nome da narradora começar com a letra A, assim como o dela; de o personagem avô se chamar Lau Rodrigues, uma possível referência ao seu avô Laurentino, a quem o romance é dedicado; de o capítulo 10 trazer referências sobre um acidente de carro que a neta sofrera, acidente esse sofrido pela escritora em 2005, Adelice Souza não construiu um romance memorialista. Como ela mesma afirma, o livro “[...] é um brinquedo, como um jogo de cartas, onde todas as lembranças e invenções estão misturadas num caldeirão” (SOUZA, 2012, p. 124).
Sobre essa relação entre memória e criação literária, Leyla Perrone-Moisés (1990, p. 105) evidencia que “Narrar uma história, mesmo que ela tenha realmente ocorrido, é reinventá-la”. As lembranças são lacunares e já não acreditamos que a literatura imite o real. Ela é apenas uma entre outras possibilidades de representá-lo, partindo ou não de situações e imagens arquivadas em nossa memória. Desse modo, segundo o escritor e ensaísta Autran Dourado (2000, p. 95), “[...] os romancistas e novelistas, na sua modéstia e simpleza aparentes, sabem que usam do real com inteira liberdade [...] O criador amassa a realidade para criar uma outra realidade, uma realidade que obedece à geometria literária [...]”.
Certamente, foi obedecendo à geometria literária que Adelice Souza nos presenteou com o capítulo “Canto XIII- De volta para a casa”, o qual eu considero a melhor passagem do romance. Nesse capítulo, ela, que além de escritora é diretora teatral, utilizou dos conhecimentos mitológicos e de dramaturgia, para compor a cena em que o avô Lau presencia, pela primeira vez, uma apresentação teatral. A peça, uma adaptação da Odisseia, foi realmente dirigida por Adelice Souza quando ela trabalhou no Liceu de Artes e Ofício.
É um belíssimo episódio em que os mitos gregos e os orixás africanos representam o retorno de Odisseu para casa. Além disso, ela insere no texto teatral cantigas populares, trava-línguas, samba de roda, e outras canções do repertório brasileiro, todos esses elementos em total harmonia com o texto e em confluência com a nossa cultura. Nesse ponto do romance, a narradora presentifica, sem dúvida, a Adelice Souza diretora teatral e a escritora.  
            Em O homem que sabia a hora de morrer, Adelice Souza mostra-se plenamente capaz de assumir outra voz que não a da maioria de suas narrativas curtas. Essa narradorinha, que não perdeu a ternura infantil, nos faz relembrar de um tempo em que os adultos reuniam as crianças e contavam histórias mirabolantes; que o poder das folhas, das rezas e da sabedoria popular era valorizado.
            Quem olha para a imagem sombria da capa do livro, sequer pode imaginar que a escritora aborda a temática da morte de uma maneira tão delicada, fazendo-nos perceber o quanto não há vida sem morte. O livro é um romance e não uma biografia. O avô da escritora não sabia a hora de morrer e a morte do personagem não reflete a morte de seu Laurentino, mas sim, é uma homenagem ao escritor Hemingway.
            Nesse seu primeiro romance, Adelice Souza reelabora suas lembranças, preenche vazios com invenções, faz da vida literatura e da literatura vida. O primeiro capítulo apresenta o símbolo alfa, o que sugere o início de tudo, porém, o capítulo final não traz o ômega, símbolo do fim. Assim, podemos inferir que, para a escritora, a morte não é o fim, é “[...] somente uma ponte para o outro lado, uma ponte” (SOUZA, 2012, p. 120); que seu texto não acaba na última palavra, mas continua em cada leitor que se dispõe a folhear as páginas desse romance, desejando, talvez, compreender os mistérios da morte, a beleza da vida.
            Saudações a esse que será, provavelmente, o primeiro de muitos de seus romances e, como declara Affonso Romano de Sant’Ana na apresentação do livro: “Longa vida a esse texto e a Adelice.

Texto apresentado no Curso Castro Alves 2012- VII Colóquio de Literatura Baiana, realizado pela Academia de Letras da Bahia.

REFERÊNCIAS

DOURADO, Autran. Uma poética de romance: matéria de carpintaria. Ed. rev. e ampl.  Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
PERRONE-MOISÉS, Leyla. A criação do texto literário. In:_____. Flores da escrivaninha: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 100-110.
SOUZA, Adelice. O homem que sabia a hora de morrer. São Paulo: Escrituras Editora, 2012.