sábado, 19 de agosto de 2017

A música continua a tocar


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                                                                                 Por Elis Franco

Estive fazendo uma análise de quanta coisa mudou em minhas quase quatro décadas de vida. Digo de vida e não de existência, pois acho que só passei a existir depois que tomei consciência de que eu era um ser no mundo, então, devo ter perdido aí uns aninhos. Fiquei admirada ao analisar apenas um item da lista: como eu tenho ouvido músicas durante esse período. Lembrei-me, então, da época em que existiam as radiolas, os radinhos de pilha eram também um sucesso, e os que possuíam um gravador de fita cassete nem se fala. Era um tempo bom demais!
        Na minha casa havia uma radiola, mas eu não tenho muita lembrança do que se ouvia nela. Sei apenas que devo ter aproveitado um pouco daquela tecnologia, pois, até hoje, tenho dois discos, do início da década de noventa, guardados, não pelo fato de serem discos, mas porque são de uma banda que eu sou fã. Uma pena não poder tocá-los, já que não sei que fim levou a radiola. Sobre as fitas cassetes, tenho lembranças boas e ruins. Bom era ficar ouvindo um programa na rádio, esperar sua música preferida e apertar o botão para gravar. E aquele registro ficava gravado para tocarmos quando quiséssemos.
        Melhor ainda foi quando lançaram os CDs, porém, como eram caros, às vezes tínhamos que continuar com nossa fitinha, ou pedíamos a uma amigo para reproduzir uma cópia do CD para nós. Mas, como nossa felicidade é clandestina, como disse Clarice Lispector, quando menos imaginávamos, a fita enroscava e perdíamos tudo; quando tínhamos oportunidade, pegávamos uma caneta e tentávamos colocá-la no devido lugar. Era uma lástima! De repente, as nossas fitas saíram de circulação, o mercado fonográfico investiu pesado no novo modelo de venda. Eu adorava comprar o CD, olhar o encarte, ler as letras das músicas, descobrir os compositores. Era um ritual! Até o momento em que eles apareciam arranhados.
        E veio a pirataria...Deixou-se de investir na produção de CDs e, quando produziam, eram de uma pobreza, os encartes foram desaparecendo. Agora os artistas criam álbuns virtuas, a internet é a responsável por divulgar os novos rits no Spotify, Palco MP3 e tantos outros canais de divulgação. E eu perdi meu rito. Reconheço, porém, que os recursos atuais possibilitam uma maior democratização da música: baixamos, compartilhamos. Isso é bom. E viva o smartphone!
        Só que eu,“dinossáurica” que sou, apesar de conviver bem com esse novo modo de escuta musical, entendendo, inclusive, que facilita bastante a minha vida, sinto saudade dos encartes, das letras ali, diante de meus olhos, enquanto eu dava uma pausa no dia, não apenas para ouvir uma canção, mas para aprendê-la e apreendê-la em cada detalhe: admirar a arte da capa, as fotografias dos artistas. Ainda bem que, em meio à crise nas vendas de CDs, ainda há alguns poucos artistas que permitem que meu ritual antigo continue. Uma hora, quem sabe, eu deixo de ser saudosista.


29/08/2017

domingo, 13 de agosto de 2017

Aquele velho retrato


Resultado de imagem para álbuns de fotos

                                        Por Elis Franco

Sou da época que máquina fotográfica era artigo de luxo e, quando precisávamos de uma fotografia, em momentos celebrativos, deveríamos contratar um fotógrafo, nem sempre um profissional, mas alguém que possuía uma máquina de qualidade discutível. Era horrível não saber como saímos na foto e, ao recebermos os retratos, como até hoje chama minha mãe, estávamos lá com olhos fechados ou vermelhos, numa pose meio esquisita, e nada poderíamos fazer a não ser nos contentarmos com aquele registro horroroso.
Quando eu comecei a trabalhar, comprei uma máquina dessas e, a partir de então, pude ir registrando um pouco mais os momentos vividos: comprava o filme de vinte e quatro ou trinta e seis poses, pilhas, e corria o risco de vê-lo “queimar”. Tínhamos todo um cuidado para não desperdiçarmos o filme, não era fácil ceder uma pose para alguém. Assim que batíamos todas as fotos, corríamos até uma casa especializada em revelação e ficávamos torcendo para que tivéssemos saído bem na fita.
Depois, as máquinas digitais ficaram mais acessíveis e podíamos observar a imagem e descartá-la, caso ela não estivesse boa. Isso diminuiu um pouco a ansiedade que sentíamos. Em seguida, os aparelhos celulares democratizaram o direito à imagem, ficou fácil registrar as banalidades ou os raros momentos vividos; ficou fácil deletar a foto indesejada, modificá-la, distorcer a realidade ainda mais. Perdeu-se, na maioria das vezes, aquele rito de imprimir as fotografias e guardá-las em álbum. Nossas imagens, hoje, são dessacralizadas nas redes sociais.
Eu, talvez por ser uma pessoa “dinossáurica”, continuo revelando minhas fotos, assim como prefiro livros impressos e gosto de comprar cd’s. Tenho vários álbuns, com as fotos cronologicamente organizadas. Minhas fotografias contam um pouco da minha história. Todas as vezes que retiro meus álbuns do armário e olho minhas imagens, as imagens de meus parentes e amigos, é como se eu estivesse revendo a minha história; percebo, inclusive, que eu já vivi momentos maravilhosos, os quais superam os desafios vividos.
Ao rever cada foto, percebo que muitas pessoas ficaram para trás, amigos de infância que eu não sei que destino levaram. Eu sinto uma saudade gostosa.  Às vezes, dou de cara com alguém que já não vive mais, entristeço-me; outras, sorriu ao pensar no momento em que aquele registro foi feito. Nessa rememoração, há uma parte de minha vida que me escapa: os meus primeiros anos. Eu tenho raríssimas fotos de minha infância, e apenas a partir dos sete anos. É a minha lacuna existencial... Só posso preenchê-la a partir dos relatos que outros fazem de mim, ou da minha memória imaginativa que, certamente, me trai. E dói não saber como fui no início, ainda que não saiba, também, de que serviria saber.

                                                                                                                                                13/08/17

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Memórias afetivas


         Resultado de imagem para memórias afetivas

Por Elis Franco

    Há acontecimentos que se tornam lembranças positivas, compondo nossas memórias afetivas e, creio eu, os episódios da infância e adolescência marcam-nos de modo mais intenso. Ao nos tornarmos adultos, nem sempre conseguimos lembrar-nos com tanta clareza das situações que nos afetaram, mas, quando há algo de significativo e forte no que vivemos, fica aquela imagem registrada em algum lugar do coração, pois, simbolicamente, é para lá que importamos tudo que nos importa, por isso, é interessante preencher-nos apenas com aquilo que nos traz paz, ainda que nem sempre consigamos.
            Entre as situações passadas que despertam em mim uma saudade gostosa estão comer o cavaco de dona Clarice, durante o intervalo, na escola pública onde estudei, e esperar o senhor do quebra-queixo, geralmente aos finais de semana, passar em minha rua com seu carrinho adaptado, ofertando-nos a alegria de saborear aquele doce de coco inesquecível. O cavaco de dona Clarice era uma massinha assada, fininha e sem recheio, polvilhada com açúcar. Esperávamos, ansiosamente, o momento em que ela, com seu carrinho de mão, chegasse ao colégio para adoçar nossas manhãs ou tardes. Acredito que aquele petisco era nosso preferido pelo fato de custar bem menos do que os outros lanches vendidos, e isso facilitava a nossa vida de estudantes pobres.
            Quanto ao senhor do quebra-queixo, lamento muito não me lembrar de seu nome agora, mesmo tendo me esforçado para isso. Se minha memória não me traiu, acredito que ele tenha sido avô de uma amiga de classe. O fato é que, quando ele passava na rua anunciando a sua guloseima, corríamos, cada um com o valor que dispunha, a fim de que ele cortasse o pedaço justo pelo quantia paga. Aquele senhorzinho talvez nunca tenha imaginado o quanto a sua passagem era importante para nós, não apenas para as crianças, mas para todos aqueles que o aguardavam desejosos.
            Do velhinho eu não tenho notícias, tenho apenas a sua imagem faceira descendo a rua e reunindo-nos ao seu redor. Dona Clarice mora agora bem mais perto de mim e abandonou o carrinho de mão, tornou-se proprietária de um mercado bem variado. Eu já não sou a criança da escola, no entanto, guardo vivas as lembranças daquela época. Faz anos que não como um cavaco, penso até em aprender a receita. Quebra-queixo eu compro sempre e não há como não me lembrar do senhor com seu carrinho adaptado, desconfiando sempre que a produção industrializada tirou o sabor daquele doce de outrora. E tudo isso me leva a pensar no tanto de afeto que os dois colocavam naquelas receitas, a ponto de eu, ainda hoje, sentir tão presentes aqueles marcantes sabores.

11/08/17
           

sábado, 5 de agosto de 2017

A festa do viver

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  Por Elis Franco           

       Desde que o homem tomou consciência da morte, da finitude, suponho que ele passou a buscar significado para o viver. Daí nasceram a religião, a filosofia e outras formas  de tentar explicar por que temos que passar por este vale de lágrimas que, para alguns privilegiados, não é tão lacrimejante assim, mas, para tantos outros, é um verdadeiro inferno dantesco. Se tem uma coisa que a vida não sabe ser é justa.
Há quem sofra muito e quem sofra o mínimo nesta viagem terrena, e não dá para saber ao certo por que a vida parece ser tão grata a alguns e tão carrasca com a outra parcela de humanos vitimada pelas guerras, pela fome, exploração e uma infinidade de situações que degradam a humanidade restante em cada homem e mulher, mesmo não tendo eles solicitado uma passagem para desembarcarem neste plano caoticamente organizado, segundo a regência da natureza ou de um ser superior, dependendo da crença de cada um.
Neste vazio da incompreensão do que é, de fato, o viver, ou melhor, para que mesmo vivemos, muitas foram e são as respostas produzidas a fim de preencher a lacuna dolorosa de ter sido convidado para uma festa, contudo, não ter a verdadeira dimensão do que se comemora ou da nossa importância para termos conquistado tão grande privilégio. Viver é travessia incerta, porém, alguns encontram consolo ao acreditar que haverá uma vida após esta, enquanto outros sabem-se matéria fadada a desintegrar-se e reintegrar-se ao universo.
Quem, afinal, teria a resposta certa para tornar o viver significante? Não sei se isso seria possível, embora muitos tenham tentado, mas é bonito observar como nós damos um jeito e encontramos nossas respostas, sejam elas idealizadas ou não. Assim é que recriamos a vida e, na dificuldade de saber o porquê de estarmos aqui, estabelecemos relações para tentar explicar, metaforicamente, este instante em que o universo nos acolhe para acariciar-nos ou atingir-nos com sua mão pesada.
E já que fomos convidados para a festa, cabe-nos aproveitar o banquete oferecido e dançar conforme a música tocada. Quando a festa é boa, importa-nos saber o motivo da comemoração e quem pagou a conta? E quando parte dos convidados não usufrui do banquete e não tem acesso ao salão, é possível aproveitar os festejos em paz, sabendo que os responsáveis pela organização não tratou a todos com equidade? Talvez, o significado de viver seja colaborar para que não nos sintamos constrangidos, diante dos convivas desprezados, com o privilégio recebido. E dane-se quem nos convidou. Se é que convidou!

05/08/17

domingo, 30 de julho de 2017

Encerrando ciclos


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Por Elis Franco

Toda nossa vida é marcada por cumprimentos de etapas. Passamos da infância à adolescência, desta à juventude, tornamos-nos adultos e, em muitos casos, saboreamos o que as pessoas chamam de “melhor idade”. Na vida educacional não é diferente: educação infantil, ensino fundamental, médio, superior, pós-graduação... É preciso vivenciar cada etapa de forma plena, a fim de estarmos preparados para a próxima, guardando do passado uma saudade que alenta, transborda-nos de sensações e da certeza de que é necessário prosseguir.
Às vezes, porém, nós lançamos âncora e fixamo-nos em algumas vivências, não avançamos, recorrendo aqui a um trecho bíblico, “para águas mais profundas. Ficamos saudosistas daquele amor que passou, não nos acostumamos com as marcas físicas que a passagem do tempo deixa em nossos corpos, sentimos amargura por ter que abandonar atitudes que não condizem com o caminho que, supostamente, escolhemos trilhar. Encerrar um ciclo não é, nem de longe, tarefa simples.
Há quem não lide bem com ciclos inevitáveis, como tornar-se um adulto autônomo, evitando, assim, assumir a direção da própria vida, já que assumir essa direção implica responder pelas atitudes tomadas. É melhor viver sobre a tutela de pais ou  outras pessoas, enfrentando um regime opressor, mas tendo quem culpar caso as coisas não deem certo. Em outras situações, o que falta é uma compreensão exata da necessidade de iniciar uma nova etapa.
Qual é o limite para alguém que enfrenta um relacionamento amoroso problemático perceber que está na hora de partir pra outro ou seguir sozinho? E para alguém que está insatisfeito no emprego ou com a profissão refazer a rota e recomeçar? Que linha demarca a fronteira entre o que eu sou e faço hoje do que eu precisarei ser e fazer amanhã? Parece fácil, mas não é. Acho que precisamos de umas aulas de ritual de passagem, só assim, talvez, saberemos o momento certo de navegar por mares desconhecidos.
Análoga às estações do ano, assim é a passagem humana pela terra: cada estação tem sua  beleza e seus desafios. Cada fase de nossas vidas tem seus encantos e frustrações. Resta-nos compreender a complexidade do viver , pois,  como disse o sábio Guimarães Rosa, “A vida é assim: esquenta e esfria, aperta daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Tenhamos coragem, então!

30/072017