domingo, 6 de setembro de 2015

É preciso abismar-se


Por Elis Franco

Na conjuntura atual, em que as relações tornaram-se tão superficiais e individualistas, há que se correr o risco de lançar-se ao abismo, não porque a coisa esteja tão terrível que a morte nas profundezas abissais seja a solução para o problema, mas tomando o ato de abismar-se no sentido de espantar-se com as situações incômodas de outrora, as quais, hoje, não são tão perceptíveis aos olhos de quem já não direciona o olhar para o lado, temendo perder o bonde, o horário, a vida.
O homem destinado a viver em comunhão com os outros, como definiu Aristóteles em sua Ética a Nicômaco, infelizmente, não é fácil de encontrar. A noção de vida em comunidade está, cada vez mais, sendo substituída pela vivência em ilhas supostamente agregadoras. Buscam-se os condomínios como opção de vivência, já que o mundo aqui fora se tornou inseguro e violento e, em muitos casos, poucos são os que se preocupam em resolver coletivamente o problema da insegurança.
O bem coletivo é menos importante do que o bem individual. Desse modo, blindar o carro, colocar uma cerca elétrica ou contratar seguranças são as opções mais viáveis quando a ideia é salvar a própria pele do caos em que se vive. É óbvio que qualquer cidadão tem direito de garantir a si aquilo que é, primeiramente, obrigação do governo proporcionar. No entanto, devemos refletir sobre se nossas ações não estão nos colocando em uma situação de alheamento comprometedor, visto que nos impedem de enxergar o quão grave é a situação coletiva, ainda que tenhamos condições de escamoteá-la através de medidas individuais.
Estamos, sem perceber, nos idiotizando, ou seja, sendo um daqueles idiótes gregos, dedicando-nos apenas aos assuntos particulares, afirmando que não há o que fazer para melhorar a situação. Enquanto a compra de um veículo for motivada apenas pelo fato de não querermos enfrentar um transporte público de baixa qualidade, quando, na verdade, deveríamos reivindicar condições melhores para o nosso deslocamento, colaborando assim para um trânsito menos engarrafado, certamente, a nossa casa comum permanecerá em desordem.
É preciso abismar-se diante do que vemos e transformar o espanto em ato, não em lamento. Afinal, é típico do humano viver com o outro, e os acontecimentos, por mais que pareçam isolados, atingem-nos em um grau menor ou maior de intensidade. É preciso, assim como cantou Carlos Drummond de Andrade, importantíssimo poeta do século XX, reforçar a ideia de que “Estou preso à vida e olho meus companheiros/Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.” E mais ainda,  “O presente é tão grande, não nos afastemos./ Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”

Em 06 de setembro de 2015


domingo, 12 de abril de 2015

Aos que têm sede


Elis Franco

Ser professor, em uma época em que as informações estão tão acessíveis através dos meios de comunicação, tornou-se uma tarefa difícil. Para piorar, a ideia de que este não ensina nada a ninguém, apenas é um mediador no processo de aprendizagem, tem sido mal interpretada pelos não mais “alunos” – já que é pejorativo afirmar que alguém é um ser “sem luz” –, mas sim estudantes, discentes, ou qualquer outra palavra que escamoteio o sentido de que eles precisam aprender.
Não é raro, no contexto escolar brasileiro, encontrarmos turmas apáticas, em que adolescentes demonstram total desrespeito aos docentes, pois acreditam que podem, no conforto do seu quarto ou em um cantinho qualquer da casa, acessar diferentes sites, nem sempre confiáveis, e aprenderem sozinhos. Em alguns casos, dependendo do conteúdo a ser estudado, resultados razoáveis são alcançados, porém, quando há complexidade no tema, o auxílio do professor é importante para esclarecer as dúvidas e direcionar o aprendizado.
É notório o quanto os professores têm sido desprestigiados por parte do “alunado”. O bom professor nem sempre é assim qualificado pela competência e habilidade ao ministrar as aulas, mas pelas piadas que conta, pelo “jeitinho” que dá no momento em que as notas vermelham devem ser lançadas no boletim. Ainda de quebra, aquele que decide lecionar é obrigado a ser fiscal, psicólogo e tantas outras funções que só atrapalham o momento de interação em sala, o qual dura geralmente cinquenta minutinhos.
Desse modo, o que vemos é uma geração de estudantes que recebem um bombardeio de informações, no entanto, são incapazes de interpretá-las bem. Concluintes do ensino médio inaptos a compreender um pequeno texto, pois tudo o que fizeram em seus anos de estudos foi decorar conteúdos para “passar” de ano, não para aprender. Discentes que reclamam se o professor “pega pesado” e, quando não são beneficiados, criticam igualmente os professores medíocres que, como dizem eles, “enrolam” mais do que tudo.
Alguém precisa dizer a essa galera que a produção de gênios no Brasil não é farta e, querendo ou não, todo aquele que está em estágio de aprendizado precisa saber ouvir alguém que já passou pela mesma experiência, preparando-se para poder colaborar com a aprendizagem de outras pessoas. É necessário que essa galerinha abandone a pose de autossuficiência e possa, após ouvir, ler e pesquisar, problematizar as questões estudadas e não apenas copiar respostas prontas.
Mas aí eu sei que a turma do contra vai dizer que o professor deve preparar uma aula assim e assado, uma aula que desperte interesse do aluno. Vão pedir que sejamos palhaços, contadores de causos, agentes motivacionais. Então eu deixo claro que eu estou falando daquele tipo de estudante arrogante, que independente do que o professor faça, manterá uma pose de quem está no pedestal. Aquele estudante que, mesmo sem ter uma base crítica satisfatória, gosta de fazer perguntinhas estranhas para testar o professor.
Por fim, seria bom se nossos estudantes conhecessem a palavra latina sitientibus, que significa “aos que têm sede”. Oxalá se fossem tomados pela sede de saber, pela sede do conhecimento. Só assim poderiam assumir uma postura ativa e crítica em sala de aula, obrigando cada um de nós professores a partilharmos o saber que trazemos e aprendermos com eles. Desse modo, teríamos realmente um espaço de trocas de saberes. Caso contrário, não há como realizar a experiência da troca com quem nada tem a oferecer sobre determinado tema. Afinal, estudantes comprometidos exigem professores competentes. Se assim não for, parem de reclamar.

12/04/15





domingo, 5 de abril de 2015

A experiência da solidão


Elis Franco

Em um mundo conectado como o nosso, repleto de redes sociais e todos os tipos de parafernálias que nos ligam a pessoas de diferentes lugares, há pouco espaço para o ser que decide vivenciar a solidão. Aqueles que optam por uma vida menos agitada, por curtir um som baixinho e ler sem ser interrompido, geralmente é estereotipado como louco, o diferente, o antissocial.
Uma geração que expõe ilusões aos quatros ventos, que precisa mostrar que é feliz, quando na verdade não sabe o que sobra de felicidade após o último drinque da noite, o último o gozo da madrugada e a última imagem postada nas redes, tem dificuldades para ficar sozinha. Estar só, normalmente, faz-nos pensar no que somos, na vida que levamos. E descobrir o que de fato estamos sendo – já que desvendar o que de fato somos é uma tarefa extremamente complexa – vai de encontro à visão idealizada que às vezes temos de nós.
Temos hoje, talvez mais do que em outras épocas, uma geração ávida por movimento. Para “estar bem na fita” é preciso cumprir a regra que diz que “é impossível ser feliz sozinho”. Por isso, o mundo virtual se alegra com sucessivas imagens de encontros entre amigos e parentes (muitas vezes nem tão amigos assim), com a ideia de que se come, bebe, dorme e curte muito bem. Nesse mundo, evita-se mostrar o lado duro da humanidade: frustrações, dores, tristezas.
Não que haja algo de errado nisso. O problema é que corremos o risco de não nos reconhecermos e aceitarmos em nossa total humanidade. De criarmos uma imagem que pode convencer o outro, mas que nós mesmos não reconhecemos diante do espelho. Evitamos a solidão e, possivelmente, estaremos condenados a viver solitários, ainda que a nossa tentativa de viver em grupo seja constantemente revelada através de imagens melhoradas pelo editor de fotos.
A experiência da solidão, o momento em que buscamos uma interiorização a fim de compreender como se dá a nossa relação com o mundo, com as pessoas, conosco, ajuda-nos a exteriorizarmos os afetos e aproveitarmos melhor o momento dos encontros. Aqueles que dedicam tempo para a autoanálise podem encontrar-se com o outro de forma mais digna, pois terão uma maior chance de compartilhar algo que engrandeça o outro e serão engrandecidos pela pequenez recíproca dos seres que se encontram.
A solidão, ou melhor, o exercício adequado da solidão, pode nos livrar do equívoco de que estamos agregados quando, na verdade, ao deitarmos à noite, após um dia exaustivo de risos, fotos, curtidas e comentários, percebemos que, enquanto a solidão permite o encontro com o eu que se reflete no outro, o encontro com o outro desprovido de um reconhecimento de si nos torna ilusoriamente inseridos, apenas seres solitários em meio a um mar de gente que partilha do mesmo estado de suposta inserção.

05/03/15


domingo, 29 de março de 2015

Toque



Desliza sobre este corpo teus dedos macios.
Ignora nele as marcas do passado,
os vestígios de outros toques não mais possíveis.

O tempo, mestre que nada ensina a quem não quer aprender,
sabe pouco de toques corpóreos, de desejos recônditos,
deste ardor que dá e que passa.

O tempo, senhor das discórdias e dos amores,
nem sempre suaviza as angústias da alma.
(Somos nós que nos desimportamos com as dores).

Desliza sobre este corpo teus dedos suaves.
Supera as leves pegadas, esqueça as outras paragens,
cumpramos, também nós, a nossa breve passagem.

(Elis Franco) 28/03/15





domingo, 22 de março de 2015

Nem gauche nem esbelta.



Quando nasci estavam os anjos dispersos,
os demônios passeavam tranquilos pelo quintal do mundo,
e minha mãe não se deu conta de que eu não seria anjo algum.

A bandeira que carrego é pluma suave,
e não é pela força que sou capaz de erguê-la:
há em mim – como em outras – o mistério da leveza densa
que desequilibra, afasta e aproxima.

Não quero espiar as casas, nem beber conhaque.
Há outras coisas que me deixam comovida: os amores sufocados,
as dores incuráveis, a despedida na hora da partida.

Ser gauche não é coisa pra humano.
E eu prefiro um pouco de açúcar a um corpo delgado,
incapaz de sustentar entre os dedos o peso da pena.

Desdobrável é pouco. Eu sou o infinitamente possível.


(Elis Franco- 22/03/15)

domingo, 15 de março de 2015

A primeira lição sobre o amor


Elis Franco

Outro dia, estava eu deitada no sossego do meu quarto, quando minha filha caçula – depois de eu ter enchido a paciência dela para deixar um pouco de lado a televisão e o tablet –, apareceu com um inseto preto e branco, o qual chamou de “joaninha” (e eu não falei nada porque achei que era uma joaninha mesmo, mas que na verdade é mais conhecido como “viuvinha”), perguntando-me empolgada se ela poderia cuidar dele “pra sempre”. Era uma alegria tão contagiante, que me fez levantar para observar aquele pequenino ser, tão delicado, pousado sobre uma folhinha verde que ela trazia em uma das mãos.
Rapidamente, mais rápido do que eu poderia supor, afirmei que ela poderia cuidar sim do pequeno bichinho. Eu só não esperava que ela fosse pedir para colocá-lo em um vaso com tampa, a fim de que o precioso animalzinho não fugisse de seu poder. Confesso que não pensei muito para responder e disparei algumas informações, em um tom de voz meigo e cuidadoso, pois tudo que eu não desejava era acabar com o brilho que havia em seus olhos.
– Minha querida, você poderá ficar com ele, mas não deve aprisioná-lo, porque se ele ficar sem oxigênio, irá morrer.
– E o que eu faço, então? Falou com ar meio triste.
– Você deve cuidar dele, ficar com ele, até o dia em que ele desejar. Uma hora ele precisará voar novamente e você terá de permitir. O “pra sempre” acabará nesse momento.
Ao contrário do que eu esperava, a danada balançou a cabeça em sinal afirmativo, partindo do quarto feito louca, talvez para aproveitar o máximo de tempo que seria o sempre do soldadinho. Só aí eu percebi que, sem querer, havia ensinado a ela a sua primeira lição sobre o amor. Uma lição que pareceu a ela tão simples, tão fácil de ser executada, mas que para nós adultos, é cheia de impasses e dificuldades de assimilação.
Quando aquele momento passou, eu nada mais soube sobre a joaninha dela. Não me lembrei de perguntar, ou não quis, sei lá! Um dia, provavelmente, eu terei de conversar sobre outras lições amorosas. Voltarei a falar sobre o pequeno inseto da infância e mostrarei que, em uma tarde qualquer, ela havia aprendido a primeira lição sobre o amor. Mas aí ela será jovem ou adulta e, infelizmente, talvez não consiga mais ter a mesma reação que teve quando criança.

15/03/15


domingo, 8 de março de 2015

Uma questão de ética


Elis Franco

Diante da atual conjuntura política brasileira, a palavra ética tornou-se presente em variados discursos. No entanto, se analisarmos a fundo essa questão, observaremos que, infelizmente, não é apenas a esfera política que carece de indivíduos éticos, capazes de, como afirma o filósofo Mário Sergio Cortella, operar com três perguntas básicas antes de agir: Quero? Devo? Posso?
Tomando como base essas três indagações, não fica difícil estabelecer um padrão comportamental condizente com o equilíbrio e equidade em nosso ethos, nossa morada maior que é o mundo. Mas talvez nos questionemos sobre a capacidade que temos para mudar o mundo, ou melhor, para partilharmos os sabores e os saberes que nos garantirão o mínimo de qualidade de vida nessa nossa morada chamada Terra.
É muito fácil chamar de antiético a quem transgrida as leis do país, sobretudo quando a transgressão assume um caráter midiático, envolto em interesses não menos imorais. É muito fácil achar que a ética apenas tem a ver com questões relacionadas ao roubo, assassinato, aborto e outras questões científicas. Mas onde colocar a ética necessária ao dia a dia, tão sorrateiramente sufocada por sujeitos que se consideram moralmente perfeitos, mas que por trás da pele de cordeiro escondem um lobo devorador, preocupado apenas com o próprio umbigo?
Onde encontrar a ética quando nos aproveitamos da necessidade das pessoas para explorar a sua mão de obra por um preço irrisório? Quando desejamos que o outro dê um jeito rápido naquilo que deveríamos fazer em um prazo estabelecido, mas que, por falta de planejamento, deixamos de realizar? Quando achamos que nossa vida é sempre mais corrida que a do outro, por isso, devemos furar a fila ou recorrer ao “jeitinho brasileiro”, viabilizado por um conhecido sempre disposto a nos dar uma mãozinha?
Como vivenciar a experiência ética se eu posso “colar” as respostas de um amigo de turma, mesmo sabendo que eu não cumpri a minha obrigação de estudante, que é estudar? Se eu posso, enquanto professor, fazer meus alunos acreditarem que eu me preocupo com o aprendizado deles, mas, na verdade, nem sequer sei o que é preparar uma aula, repito apenas o que fiz em turmas anteriores, em anos anteriores, ainda que cada nova turma tenha as suas idiossincrasias?
Comportamentos antiéticos como esses se tornaram tão comuns que nem paramos para refletir até que ponto estamos sendo honestos com aqueles que dividem a morada conosco. Na verdade, o nosso narcisismo às vezes nos impede de vivenciar a alteridade, e tudo que desejamos é facilitar a nossa vida, ainda que isso custe a alguém um preço injusto. O nosso ethos, morada da ética por excelência, deve ser o lugar onde todas as nossas decisões e ações, para além de um moralismo devasso, só se concretizem após termos respondido a esses questionamentos: Quero? Sim. Posso? Sim. Mas será que devo?


08/03/15

sábado, 28 de fevereiro de 2015

O não (re)conhecido

Elis Franco

       Outro dia, participando de um evento para professores, ouvi da palestrante uma história muito interessante. Ela nos contou que, certa vez, por ocasião da celebração da páscoa, decidiu comprar bacalhau e couve para o almoço. No dia anterior à comemoração, precisou sair com a filha, deixando a casa sob os cuidados da empregada.
      Quando, no domingo, ela abriu a geladeira para separar os ingredientes, nada encontrou. Chamou a filha e relatou o ocorrido, cogitando que a empregada poderia, por algum motivo desconhecido, ter levado o bacalhau e a couve para casa. Sem saber o que realmente havia acontecido, voltou ao supermercado e fez novas compras, preparando o almoço como planejado.
         Na segunda-feira pela manhã, a empregada chegou com o sorriso largo e foi inquirida sobre o destino do bacalhau e da couve. Espantada, disse que, para facilitar a vida da patroa, havia colocado o bacalhau em uma vasilha com água e cortado a couve, pondo-os na geladeira.
     Tal não foi a surpresa da patroa, ao perceber que foi incapaz de encontrar os ingredientes. E tudo se explica pelo simples fato de ela está procurando o que para ela era óbvio: um quilo de bacalhau embalado e folhas de couve inteiras. No entanto, aquilo que ela procurava não assumia mais a mesma forma.
         Essa história, aparentemente tão boba, ajuda-nos a refletir acerca de nossas certezas sobre as coisas. Aquilo que nos parece óbvio pode não ser tão claro para outras pessoas, gerando, assim, equívocos e desencontros. Aquilo que eu tento fazer o outro ver, a partir do modelo que disponho, pode não estar sendo percebido pelo outro da mesma maneira.
           Além disso, chega um momento da vida que é necessário fugir da obviedade; não nos acostumarmos com um olhar incapaz de perceber além do que temos como parâmetro. Afinal, perceber nada mais é do que conhecer por meio dos sentidos. E devemos ser capazes de usar nossos sentidos para reconhecer as mudanças pelas quais o mundo passa, ou não conseguiremos fazer uso daquilo que julgamos conhecimento adquirido.
            A couve e o bacalhau continuam na geladeira.  Porém, só será capaz de fazer uso deles aquele que possuir a habilidade de (des)construir formas e conceitos que já não atendem mais ao contexto vivido. Reconhecer as mudanças não necessariamente para aceitá-las, mas para que não passemos por ridículos ao não sabermos agir, prudentemente, quando elas se apresentarem a nós.


28/02/15

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Da felicidade ou infelicidade do ato de escolher


Por Elis Franco

A possibilidade da escolha nem sempre provoca em nós o mesmo estado de ânimo, sobretudo quando não estamos ou não nos sentimos preparados para tomar decisões desafiadoras. O momento que antecede a escolha é sempre carregado de tensão, visto que ‘escolher’ é necessariamente deixar algo, alguém ou alguma situação para trás.
Quando estamos diante de mais de uma situação positiva e a escolha se faz necessária, sentimo-nos privilegiados, como se as comportas do céu tivessem derramado bênçãos sobre nossas vidas. Nesse momento, há aqueles que se envaidecem além da conta, atribuindo a si um mérito maior do que de fato merecem; há também os que fingem ser modestos, afirmando que têm recebido da vida mais do que seria justo. Mas há, ainda, aquelas pessoas que sabem atribuir a si a medida certa do merecimento, sem exageros, considerando que, além de merecimento, parte das coisas boas que ocorrem em nossa vida tem outra razão de ser.
O difícil mesmo é quando temos que escolher entre aquilo que a nossa suposta razão afirma ser ruim, mas a nossa emoção insiste em considerar a melhor opção. Difícil mesmo é ter que abdicar de novas experiências, simplesmente porque temos medo de enfrentar os desafios que a vida propõe; é ter que deixar a vida meio cinza, porque é necessário seguir um padrão de felicidade que agrada a todos, menos a nós.
Certa vez ouvi alguém dizer que não é possível ter tudo na vida e tive que concordar sem ressalvas. Compreendi, além disso, que cada um escolhe a partir do projeto de vida que traçou. Há aqueles para quem a felicidade consiste em estabilidade, segurança, ainda que não haja mais o brilho nos olhos, a alegria no riso. Há quem se aventure além da conta, pois considera que ser feliz é viver um dia de cada vez, como se cada dia fosse o último.
Não acredito que podemos ser juízes a escolha do outro. Não acredito que podemos tomar como nossa uma experiência que é individual. Escolho não querer e nem precisar escolher por ninguém; escolho poder aprender a escolher a partir das experiências alheias, mesmo compreendendo que cada indivíduo é único e vivencia de modo particular as situações da vida. Escolho não escolher o óbvio quando o óbvio não mais provocar em mim o viço, pois chegará um dia em que não será possível fugir da morte. E já não poderei mais fazer escolha alguma.


21/02/15

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Aquela que saiu nua para o carnaval

Elis Franco

Mulher livre/ Maria Alm
Viver em estado de sítio foi, durante muito tempo, o destino único de algumas mulheres. Aquelas que por ventura transgrediram as regras do cerceamento imposto, dando um passo além da área própria para o seu trânsito, sofreram diferentes penalidades. A elas fora imposta a tutela paterna, seguida de uma ilusão dos contos de fadas: a mulher necessita de um príncipe que a salve e dela cuide. Tal príncipe era representado pela figura de um marido exemplar, um varão a quem se devia respeito e submissão.
Ainda hoje, é possível encontrar, em um número talvez menor, mulheres que sentem na pele 
os resquícios de uma época em que ser mulher era ser indefesa, mas ao mesmo tempo astuta. Atribuindo a elas essas qualidades, tornava-se fácil tentar enredá-la em um cerco, na tentativa de que não fossem seduzidas e, consequentemente, fizessem uso da astúcia que atrai e ludibria os juízos mais sãos.
Mas um dia, em algum lugar desse mundo de meu Deus, uma delas deu o salto para além do muro e a danação foi grande, abalando a autoridade patriarcal. Fico imaginando a cara do paspalho que presenciou o primeiro salto, o primeiro rompimento de barreira. Imagino o quanto deve ter sido difícil para o tal cara – ou caras – aceitar que o rumo da história, ainda que lentamente, começara a se modificar.
A coragem dessa primeira criatura impulsionou outras a darem saltos cada vez mais altos. Após os saltos, seguiu-se a destruição das barreiras e, apenas através da força brutal ou do julgamento social que marginaliza, pode-se tentar barrar as andanças que elas fazem, os espaços que ocupam. Para iniciar o processo, muitas tombaram com as barreiras, não se pode negar. Mas também não se deve esquecer de que, às vezes, o sacrifício de um pode garantir a sobrevivência de tantos outros do grupo.
E um dia, em um canto qualquer desse planeta, o grito dessas mulheres “galos”, ecoou forte na manhã de uma pobre moça que habitava uma cidadezinha qualquer, vivendo uma vida qualquer, sob preceitos que não compreendia bem, mas era obrigada, condenada a seguir. O grito do galo teceu uma nova manhã na vida da jovem, levando-a a perceber que  viver era uma festa, que no outro lado da rua era possível vivenciar as fantasias, colorir sem medo a vida desbotada que tinha.
Certa vez, a moça ouviu dizer que nós vestimos trajes que nem sempre combinam conosco, que não nos definem bem. Na época ela não compreendeu direito a expressão. Mas no dia em que o grito do galo ecoou na varanda de sua casa, a moça sentiu o que verdadeiramente essas palavras queriam dizer.
Era uma manhã festiva. O baile da vida a convidava para a dança. A moça, sem pensar duas vezes, despiu-se e, como quem pisa no coração do mundo, saiu nua para o carnaval.


13/02/15

domingo, 8 de fevereiro de 2015

A arte da amizade


Por Elis Franco

A quem chamar de amigo em uma época em que as relações são, em muitos casos, sustentadas mais por contatos virtuais do que físicos? A quem chamar de amigo quando amigos de longas datas, conhecidos recentes e pessoas nunca vistas estão inseridos em um mesmo contexto, obtendo informações sobre nossas vidas em um mesmo grau de qualidade e quantidade?
Assim como outras instâncias dos relacionamentos interpessoais, a amizade, ou pelo menos aquilo que é classificado como amizade, também sofreu modificações. Talvez seja necessário pensar como o personagem de Antoine de Saint-Exupéry, ao afirmar que o tempo dedicado a algo ou a alguém expressa o quanto este algo ou alguém é importante para nós.
É possível, ainda, assim como propôs o filósofo Aristóteles, classificar a amizade em três tipos distintos: amizade recíproca, amizade baseada na utilidade e a amizade baseada no prazer. Há aqueles que se tornaram amigos não pelo que outro possui ou será capaz de fazer por ele, mas apenas pelo que o outro é; pelo caráter e atitude, devotando-se mutuamente respeito e admiração.
Há pessoas, porém, que se fazem amigos pensando na utilidade que o outro terá em sua vida; nos benefícios que poderão receber. Tais pessoas, logo que cessarem os benefícios, irão buscar novas amizades, visto que seu objetivo deixou de ser alcançado. E o que dizer daqueles que se tornam nossos amigos a fim de desfrutar dos momentos agradáveis que somos capazes de lhes proporcionar? Do prazer que sentem ao estar ao nosso lado?
Certamente, em nosso grupo de amizade devem existir pessoas iguais a essas. Certamente, talvez estejamos nivelando os nossos amigos a partir do que eles apenas “são”, da “utilidade” que nos oferecem ou pelo “prazer” da companhia agradável. A verdade é que chega um momento em que é preciso organizar a lista e colocar cada coisa em seu lugar. Amigos verdadeiros não precisam ter utilidade... Amigos verdadeiros são aqueles com quem podemos contar, mesmo que eles não nos ofereçam nada de material. Amigos são seres diante de quem retiramos o véu que nos cobre a face esculpida por medos, traumas, dúvidas e alegrias.  Se não for possível retirar o véu, provavelmente está na hora de reorganizar a lista.


08/02/15

domingo, 1 de fevereiro de 2015

O que faremos depois daqui

Elis Franco


A vida é mesmo um amanhã contínuo. Um ponto sem repouso na reta infinita do devir. E o que nos faz perceber que ela geralmente nunca se situa no presente, é o fato de tentarmos planejar o futuro, como se as realizações do hoje não bastassem. Estamos sempre pensando no que faremos depois do que fazemos agora, porque o agora nos denuncia a finitude, mas o depois nos salva da armadilha do corte do tempo, da abrupta ruptura que é a morte.
Há quem deixe de vivenciar intensamente o dia de hoje, tecendo caminhos para a posterioridade incerta. Pais que não viram seus filhos crescerem, pois necessitavam trabalhar em demasia para garantir a eles uma faculdade, um curso e bens materiais, sem nenhuma certeza de que seus planos se concretizariam. Homens e mulheres em uma faina diária, rabiscando projetos de vida que nem sempre inclui o viver o seu tempo.
Bom mesmo seria não esquecermos de que a vida é fugaz. Que nem sempre o riso, o abraço e o afago negados poderão ser disponibilizados em outros momentos. Bom mesmo seria se o amanhã não exigisse de nós nada além do que pudéssemos entregá-lo quando ele se tornasse o hoje. Bom mesmo seria se, ao sermos questionados sobre o que faremos depois daqui, apenas sorríssemos, na certeza de que o até aqui foi vivido e celebrado de modo a não nos preocuparmos se o amanhã haverá ou não de surgir.
O amanhã é o depois daqui capaz de nos tirar o sono, mas que mantém vivos os nossos sonhos. O amanhã é a possibilidade de renovarmos os laços, acertarmos os passos. Depois daqui é a incerteza... Depois daqui não deve subtrair de nós a porção de vida que nos é servida diariamente, na medida certa para que o depois daqui não seja uma lembrança do que não fomos e não vivenciamos, quando era para termos sido... termos vivido.


31/01/15