domingo, 1 de fevereiro de 2015

O que faremos depois daqui

Elis Franco


A vida é mesmo um amanhã contínuo. Um ponto sem repouso na reta infinita do devir. E o que nos faz perceber que ela geralmente nunca se situa no presente, é o fato de tentarmos planejar o futuro, como se as realizações do hoje não bastassem. Estamos sempre pensando no que faremos depois do que fazemos agora, porque o agora nos denuncia a finitude, mas o depois nos salva da armadilha do corte do tempo, da abrupta ruptura que é a morte.
Há quem deixe de vivenciar intensamente o dia de hoje, tecendo caminhos para a posterioridade incerta. Pais que não viram seus filhos crescerem, pois necessitavam trabalhar em demasia para garantir a eles uma faculdade, um curso e bens materiais, sem nenhuma certeza de que seus planos se concretizariam. Homens e mulheres em uma faina diária, rabiscando projetos de vida que nem sempre inclui o viver o seu tempo.
Bom mesmo seria não esquecermos de que a vida é fugaz. Que nem sempre o riso, o abraço e o afago negados poderão ser disponibilizados em outros momentos. Bom mesmo seria se o amanhã não exigisse de nós nada além do que pudéssemos entregá-lo quando ele se tornasse o hoje. Bom mesmo seria se, ao sermos questionados sobre o que faremos depois daqui, apenas sorríssemos, na certeza de que o até aqui foi vivido e celebrado de modo a não nos preocuparmos se o amanhã haverá ou não de surgir.
O amanhã é o depois daqui capaz de nos tirar o sono, mas que mantém vivos os nossos sonhos. O amanhã é a possibilidade de renovarmos os laços, acertarmos os passos. Depois daqui é a incerteza... Depois daqui não deve subtrair de nós a porção de vida que nos é servida diariamente, na medida certa para que o depois daqui não seja uma lembrança do que não fomos e não vivenciamos, quando era para termos sido... termos vivido.


31/01/15