sábado, 21 de fevereiro de 2015

Da felicidade ou infelicidade do ato de escolher


Por Elis Franco

A possibilidade da escolha nem sempre provoca em nós o mesmo estado de ânimo, sobretudo quando não estamos ou não nos sentimos preparados para tomar decisões desafiadoras. O momento que antecede a escolha é sempre carregado de tensão, visto que ‘escolher’ é necessariamente deixar algo, alguém ou alguma situação para trás.
Quando estamos diante de mais de uma situação positiva e a escolha se faz necessária, sentimo-nos privilegiados, como se as comportas do céu tivessem derramado bênçãos sobre nossas vidas. Nesse momento, há aqueles que se envaidecem além da conta, atribuindo a si um mérito maior do que de fato merecem; há também os que fingem ser modestos, afirmando que têm recebido da vida mais do que seria justo. Mas há, ainda, aquelas pessoas que sabem atribuir a si a medida certa do merecimento, sem exageros, considerando que, além de merecimento, parte das coisas boas que ocorrem em nossa vida tem outra razão de ser.
O difícil mesmo é quando temos que escolher entre aquilo que a nossa suposta razão afirma ser ruim, mas a nossa emoção insiste em considerar a melhor opção. Difícil mesmo é ter que abdicar de novas experiências, simplesmente porque temos medo de enfrentar os desafios que a vida propõe; é ter que deixar a vida meio cinza, porque é necessário seguir um padrão de felicidade que agrada a todos, menos a nós.
Certa vez ouvi alguém dizer que não é possível ter tudo na vida e tive que concordar sem ressalvas. Compreendi, além disso, que cada um escolhe a partir do projeto de vida que traçou. Há aqueles para quem a felicidade consiste em estabilidade, segurança, ainda que não haja mais o brilho nos olhos, a alegria no riso. Há quem se aventure além da conta, pois considera que ser feliz é viver um dia de cada vez, como se cada dia fosse o último.
Não acredito que podemos ser juízes a escolha do outro. Não acredito que podemos tomar como nossa uma experiência que é individual. Escolho não querer e nem precisar escolher por ninguém; escolho poder aprender a escolher a partir das experiências alheias, mesmo compreendendo que cada indivíduo é único e vivencia de modo particular as situações da vida. Escolho não escolher o óbvio quando o óbvio não mais provocar em mim o viço, pois chegará um dia em que não será possível fugir da morte. E já não poderei mais fazer escolha alguma.


21/02/15