domingo, 12 de abril de 2015

Aos que têm sede


Elis Franco

Ser professor, em uma época em que as informações estão tão acessíveis através dos meios de comunicação, tornou-se uma tarefa difícil. Para piorar, a ideia de que este não ensina nada a ninguém, apenas é um mediador no processo de aprendizagem, tem sido mal interpretada pelos não mais “alunos” – já que é pejorativo afirmar que alguém é um ser “sem luz” –, mas sim estudantes, discentes, ou qualquer outra palavra que escamoteio o sentido de que eles precisam aprender.
Não é raro, no contexto escolar brasileiro, encontrarmos turmas apáticas, em que adolescentes demonstram total desrespeito aos docentes, pois acreditam que podem, no conforto do seu quarto ou em um cantinho qualquer da casa, acessar diferentes sites, nem sempre confiáveis, e aprenderem sozinhos. Em alguns casos, dependendo do conteúdo a ser estudado, resultados razoáveis são alcançados, porém, quando há complexidade no tema, o auxílio do professor é importante para esclarecer as dúvidas e direcionar o aprendizado.
É notório o quanto os professores têm sido desprestigiados por parte do “alunado”. O bom professor nem sempre é assim qualificado pela competência e habilidade ao ministrar as aulas, mas pelas piadas que conta, pelo “jeitinho” que dá no momento em que as notas vermelham devem ser lançadas no boletim. Ainda de quebra, aquele que decide lecionar é obrigado a ser fiscal, psicólogo e tantas outras funções que só atrapalham o momento de interação em sala, o qual dura geralmente cinquenta minutinhos.
Desse modo, o que vemos é uma geração de estudantes que recebem um bombardeio de informações, no entanto, são incapazes de interpretá-las bem. Concluintes do ensino médio inaptos a compreender um pequeno texto, pois tudo o que fizeram em seus anos de estudos foi decorar conteúdos para “passar” de ano, não para aprender. Discentes que reclamam se o professor “pega pesado” e, quando não são beneficiados, criticam igualmente os professores medíocres que, como dizem eles, “enrolam” mais do que tudo.
Alguém precisa dizer a essa galera que a produção de gênios no Brasil não é farta e, querendo ou não, todo aquele que está em estágio de aprendizado precisa saber ouvir alguém que já passou pela mesma experiência, preparando-se para poder colaborar com a aprendizagem de outras pessoas. É necessário que essa galerinha abandone a pose de autossuficiência e possa, após ouvir, ler e pesquisar, problematizar as questões estudadas e não apenas copiar respostas prontas.
Mas aí eu sei que a turma do contra vai dizer que o professor deve preparar uma aula assim e assado, uma aula que desperte interesse do aluno. Vão pedir que sejamos palhaços, contadores de causos, agentes motivacionais. Então eu deixo claro que eu estou falando daquele tipo de estudante arrogante, que independente do que o professor faça, manterá uma pose de quem está no pedestal. Aquele estudante que, mesmo sem ter uma base crítica satisfatória, gosta de fazer perguntinhas estranhas para testar o professor.
Por fim, seria bom se nossos estudantes conhecessem a palavra latina sitientibus, que significa “aos que têm sede”. Oxalá se fossem tomados pela sede de saber, pela sede do conhecimento. Só assim poderiam assumir uma postura ativa e crítica em sala de aula, obrigando cada um de nós professores a partilharmos o saber que trazemos e aprendermos com eles. Desse modo, teríamos realmente um espaço de trocas de saberes. Caso contrário, não há como realizar a experiência da troca com quem nada tem a oferecer sobre determinado tema. Afinal, estudantes comprometidos exigem professores competentes. Se assim não for, parem de reclamar.

12/04/15