sábado, 19 de agosto de 2017

A música continua a tocar


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                                                                                 Por Elis Franco

Estive fazendo uma análise de quanta coisa mudou em minhas quase quatro décadas de vida. Digo de vida e não de existência, pois acho que só passei a existir depois que tomei consciência de que eu era um ser no mundo, então, devo ter perdido aí uns aninhos. Fiquei admirada ao analisar apenas um item da lista: como eu tenho ouvido músicas durante esse período. Lembrei-me, então, da época em que existiam as radiolas, os radinhos de pilha eram também um sucesso, e os que possuíam um gravador de fita cassete nem se fala. Era um tempo bom demais!
        Na minha casa havia uma radiola, mas eu não tenho muita lembrança do que se ouvia nela. Sei apenas que devo ter aproveitado um pouco daquela tecnologia, pois, até hoje, tenho dois discos, do início da década de noventa, guardados, não pelo fato de serem discos, mas porque são de uma banda que eu sou fã. Uma pena não poder tocá-los, já que não sei que fim levou a radiola. Sobre as fitas cassetes, tenho lembranças boas e ruins. Bom era ficar ouvindo um programa na rádio, esperar sua música preferida e apertar o botão para gravar. E aquele registro ficava gravado para tocarmos quando quiséssemos.
        Melhor ainda foi quando lançaram os CDs, porém, como eram caros, às vezes tínhamos que continuar com nossa fitinha, ou pedíamos a uma amigo para reproduzir uma cópia do CD para nós. Mas, como nossa felicidade é clandestina, como disse Clarice Lispector, quando menos imaginávamos, a fita enroscava e perdíamos tudo; quando tínhamos oportunidade, pegávamos uma caneta e tentávamos colocá-la no devido lugar. Era uma lástima! De repente, as nossas fitas saíram de circulação, o mercado fonográfico investiu pesado no novo modelo de venda. Eu adorava comprar o CD, olhar o encarte, ler as letras das músicas, descobrir os compositores. Era um ritual! Até o momento em que eles apareciam arranhados.
        E veio a pirataria...Deixou-se de investir na produção de CDs e, quando produziam, eram de uma pobreza, os encartes foram desaparecendo. Agora os artistas criam álbuns virtuas, a internet é a responsável por divulgar os novos rits no Spotify, Palco MP3 e tantos outros canais de divulgação. E eu perdi meu rito. Reconheço, porém, que os recursos atuais possibilitam uma maior democratização da música: baixamos, compartilhamos. Isso é bom. E viva o smartphone!
        Só que eu,“dinossáurica” que sou, apesar de conviver bem com esse novo modo de escuta musical, entendendo, inclusive, que facilita bastante a minha vida, sinto saudade dos encartes, das letras ali, diante de meus olhos, enquanto eu dava uma pausa no dia, não apenas para ouvir uma canção, mas para aprendê-la e apreendê-la em cada detalhe: admirar a arte da capa, as fotografias dos artistas. Ainda bem que, em meio à crise nas vendas de CDs, ainda há alguns poucos artistas que permitem que meu ritual antigo continue. Uma hora, quem sabe, eu deixo de ser saudosista.


29/08/2017

domingo, 13 de agosto de 2017

Aquele velho retrato


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                                        Por Elis Franco

Sou da época que máquina fotográfica era artigo de luxo e, quando precisávamos de uma fotografia, em momentos celebrativos, deveríamos contratar um fotógrafo, nem sempre um profissional, mas alguém que possuía uma máquina de qualidade discutível. Era horrível não saber como saímos na foto e, ao recebermos os retratos, como até hoje chama minha mãe, estávamos lá com olhos fechados ou vermelhos, numa pose meio esquisita, e nada poderíamos fazer a não ser nos contentarmos com aquele registro horroroso.
Quando eu comecei a trabalhar, comprei uma máquina dessas e, a partir de então, pude ir registrando um pouco mais os momentos vividos: comprava o filme de vinte e quatro ou trinta e seis poses, pilhas, e corria o risco de vê-lo “queimar”. Tínhamos todo um cuidado para não desperdiçarmos o filme, não era fácil ceder uma pose para alguém. Assim que batíamos todas as fotos, corríamos até uma casa especializada em revelação e ficávamos torcendo para que tivéssemos saído bem na fita.
Depois, as máquinas digitais ficaram mais acessíveis e podíamos observar a imagem e descartá-la, caso ela não estivesse boa. Isso diminuiu um pouco a ansiedade que sentíamos. Em seguida, os aparelhos celulares democratizaram o direito à imagem, ficou fácil registrar as banalidades ou os raros momentos vividos; ficou fácil deletar a foto indesejada, modificá-la, distorcer a realidade ainda mais. Perdeu-se, na maioria das vezes, aquele rito de imprimir as fotografias e guardá-las em álbum. Nossas imagens, hoje, são dessacralizadas nas redes sociais.
Eu, talvez por ser uma pessoa “dinossáurica”, continuo revelando minhas fotos, assim como prefiro livros impressos e gosto de comprar cd’s. Tenho vários álbuns, com as fotos cronologicamente organizadas. Minhas fotografias contam um pouco da minha história. Todas as vezes que retiro meus álbuns do armário e olho minhas imagens, as imagens de meus parentes e amigos, é como se eu estivesse revendo a minha história; percebo, inclusive, que eu já vivi momentos maravilhosos, os quais superam os desafios vividos.
Ao rever cada foto, percebo que muitas pessoas ficaram para trás, amigos de infância que eu não sei que destino levaram. Eu sinto uma saudade gostosa.  Às vezes, dou de cara com alguém que já não vive mais, entristeço-me; outras, sorriu ao pensar no momento em que aquele registro foi feito. Nessa rememoração, há uma parte de minha vida que me escapa: os meus primeiros anos. Eu tenho raríssimas fotos de minha infância, e apenas a partir dos sete anos. É a minha lacuna existencial... Só posso preenchê-la a partir dos relatos que outros fazem de mim, ou da minha memória imaginativa que, certamente, me trai. E dói não saber como fui no início, ainda que não saiba, também, de que serviria saber.

                                                                                                                                                13/08/17

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Memórias afetivas


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Por Elis Franco

    Há acontecimentos que se tornam lembranças positivas, compondo nossas memórias afetivas e, creio eu, os episódios da infância e adolescência marcam-nos de modo mais intenso. Ao nos tornarmos adultos, nem sempre conseguimos lembrar-nos com tanta clareza das situações que nos afetaram, mas, quando há algo de significativo e forte no que vivemos, fica aquela imagem registrada em algum lugar do coração, pois, simbolicamente, é para lá que importamos tudo que nos importa, por isso, é interessante preencher-nos apenas com aquilo que nos traz paz, ainda que nem sempre consigamos.
            Entre as situações passadas que despertam em mim uma saudade gostosa estão comer o cavaco de dona Clarice, durante o intervalo, na escola pública onde estudei, e esperar o senhor do quebra-queixo, geralmente aos finais de semana, passar em minha rua com seu carrinho adaptado, ofertando-nos a alegria de saborear aquele doce de coco inesquecível. O cavaco de dona Clarice era uma massinha assada, fininha e sem recheio, polvilhada com açúcar. Esperávamos, ansiosamente, o momento em que ela, com seu carrinho de mão, chegasse ao colégio para adoçar nossas manhãs ou tardes. Acredito que aquele petisco era nosso preferido pelo fato de custar bem menos do que os outros lanches vendidos, e isso facilitava a nossa vida de estudantes pobres.
            Quanto ao senhor do quebra-queixo, lamento muito não me lembrar de seu nome agora, mesmo tendo me esforçado para isso. Se minha memória não me traiu, acredito que ele tenha sido avô de uma amiga de classe. O fato é que, quando ele passava na rua anunciando a sua guloseima, corríamos, cada um com o valor que dispunha, a fim de que ele cortasse o pedaço justo pelo quantia paga. Aquele senhorzinho talvez nunca tenha imaginado o quanto a sua passagem era importante para nós, não apenas para as crianças, mas para todos aqueles que o aguardavam desejosos.
            Do velhinho eu não tenho notícias, tenho apenas a sua imagem faceira descendo a rua e reunindo-nos ao seu redor. Dona Clarice mora agora bem mais perto de mim e abandonou o carrinho de mão, tornou-se proprietária de um mercado bem variado. Eu já não sou a criança da escola, no entanto, guardo vivas as lembranças daquela época. Faz anos que não como um cavaco, penso até em aprender a receita. Quebra-queixo eu compro sempre e não há como não me lembrar do senhor com seu carrinho adaptado, desconfiando sempre que a produção industrializada tirou o sabor daquele doce de outrora. E tudo isso me leva a pensar no tanto de afeto que os dois colocavam naquelas receitas, a ponto de eu, ainda hoje, sentir tão presentes aqueles marcantes sabores.

11/08/17
           

sábado, 5 de agosto de 2017

A festa do viver

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  Por Elis Franco           

       Desde que o homem tomou consciência da morte, da finitude, suponho que ele passou a buscar significado para o viver. Daí nasceram a religião, a filosofia e outras formas  de tentar explicar por que temos que passar por este vale de lágrimas que, para alguns privilegiados, não é tão lacrimejante assim, mas, para tantos outros, é um verdadeiro inferno dantesco. Se tem uma coisa que a vida não sabe ser é justa.
Há quem sofra muito e quem sofra o mínimo nesta viagem terrena, e não dá para saber ao certo por que a vida parece ser tão grata a alguns e tão carrasca com a outra parcela de humanos vitimada pelas guerras, pela fome, exploração e uma infinidade de situações que degradam a humanidade restante em cada homem e mulher, mesmo não tendo eles solicitado uma passagem para desembarcarem neste plano caoticamente organizado, segundo a regência da natureza ou de um ser superior, dependendo da crença de cada um.
Neste vazio da incompreensão do que é, de fato, o viver, ou melhor, para que mesmo vivemos, muitas foram e são as respostas produzidas a fim de preencher a lacuna dolorosa de ter sido convidado para uma festa, contudo, não ter a verdadeira dimensão do que se comemora ou da nossa importância para termos conquistado tão grande privilégio. Viver é travessia incerta, porém, alguns encontram consolo ao acreditar que haverá uma vida após esta, enquanto outros sabem-se matéria fadada a desintegrar-se e reintegrar-se ao universo.
Quem, afinal, teria a resposta certa para tornar o viver significante? Não sei se isso seria possível, embora muitos tenham tentado, mas é bonito observar como nós damos um jeito e encontramos nossas respostas, sejam elas idealizadas ou não. Assim é que recriamos a vida e, na dificuldade de saber o porquê de estarmos aqui, estabelecemos relações para tentar explicar, metaforicamente, este instante em que o universo nos acolhe para acariciar-nos ou atingir-nos com sua mão pesada.
E já que fomos convidados para a festa, cabe-nos aproveitar o banquete oferecido e dançar conforme a música tocada. Quando a festa é boa, importa-nos saber o motivo da comemoração e quem pagou a conta? E quando parte dos convidados não usufrui do banquete e não tem acesso ao salão, é possível aproveitar os festejos em paz, sabendo que os responsáveis pela organização não tratou a todos com equidade? Talvez, o significado de viver seja colaborar para que não nos sintamos constrangidos, diante dos convivas desprezados, com o privilégio recebido. E dane-se quem nos convidou. Se é que convidou!

05/08/17

domingo, 30 de julho de 2017

Encerrando ciclos


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Por Elis Franco

Toda nossa vida é marcada por cumprimentos de etapas. Passamos da infância à adolescência, desta à juventude, tornamos-nos adultos e, em muitos casos, saboreamos o que as pessoas chamam de “melhor idade”. Na vida educacional não é diferente: educação infantil, ensino fundamental, médio, superior, pós-graduação... É preciso vivenciar cada etapa de forma plena, a fim de estarmos preparados para a próxima, guardando do passado uma saudade que alenta, transborda-nos de sensações e da certeza de que é necessário prosseguir.
Às vezes, porém, nós lançamos âncora e fixamo-nos em algumas vivências, não avançamos, recorrendo aqui a um trecho bíblico, “para águas mais profundas. Ficamos saudosistas daquele amor que passou, não nos acostumamos com as marcas físicas que a passagem do tempo deixa em nossos corpos, sentimos amargura por ter que abandonar atitudes que não condizem com o caminho que, supostamente, escolhemos trilhar. Encerrar um ciclo não é, nem de longe, tarefa simples.
Há quem não lide bem com ciclos inevitáveis, como tornar-se um adulto autônomo, evitando, assim, assumir a direção da própria vida, já que assumir essa direção implica responder pelas atitudes tomadas. É melhor viver sobre a tutela de pais ou  outras pessoas, enfrentando um regime opressor, mas tendo quem culpar caso as coisas não deem certo. Em outras situações, o que falta é uma compreensão exata da necessidade de iniciar uma nova etapa.
Qual é o limite para alguém que enfrenta um relacionamento amoroso problemático perceber que está na hora de partir pra outro ou seguir sozinho? E para alguém que está insatisfeito no emprego ou com a profissão refazer a rota e recomeçar? Que linha demarca a fronteira entre o que eu sou e faço hoje do que eu precisarei ser e fazer amanhã? Parece fácil, mas não é. Acho que precisamos de umas aulas de ritual de passagem, só assim, talvez, saberemos o momento certo de navegar por mares desconhecidos.
Análoga às estações do ano, assim é a passagem humana pela terra: cada estação tem sua  beleza e seus desafios. Cada fase de nossas vidas tem seus encantos e frustrações. Resta-nos compreender a complexidade do viver , pois,  como disse o sábio Guimarães Rosa, “A vida é assim: esquenta e esfria, aperta daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Tenhamos coragem, então!

30/072017

domingo, 16 de julho de 2017

Carta ao amor que virá

Por Elis Franco

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Em algum lugar de sua obra, Clarice Lispector diz que o amor não pode paralisar a vida da gente. Parafraseando Clarice, afirmo que o amor malsucedido não deve mesmo parar-nos por muito tempo. É óbvio que experimentar a angústia pós rompimento é natural. É uma etapa a ser cumprida para o bem do amor que virá, pois o amor vindouro não merece encontrar-nos presos a uma história sobre a qual as lembranças não nos trazem nostalgia.
É preciso, então, fazer uma alerta ao amor que virá: você pode encontrar a casa bagunçada! Não se espante com os cacos quebrados, com as marcas na alma. Não tente juntar os cacos, é melhor trazer um vaso novo, imprimir a sua marca. Ah!Também não queira que eu arrume a sua bagunça. Não sou boa nisso. Sugiro que façamos a nossa, que aprendamos juntos a lidar com ela, que alinhemos os passos na desordem irremediável que é viver a dois.
Ao amor que virá eu deixo um recadinho: talvez eu não seja o que você procura se o que você procura é alguém para demonstrar poder. Não lido muito bem com as tiranias. Sou das liberdades, das negociações. Não me coaja, não dite o que devo ou não fazer. Tente compreender as minhas razões para ser quem sou e fazer o que faço. Com delicadeza e atitudes, e não com imposição, eu posso até entrar em seu ritmo, desde quando ele não seja apenas para satisfazer seus caprichos sem fundamentos.
Tem mais uma coisa: não queira mais do que aquilo que você pode dar. É preciso equilibrar a balança.Compreenda também que nunca conseguiremos ser plenamente aquilo que o outro deseja. Esteja preparado para a rotina, mas não torne nossas vidas uma monotonia. Não se acostume comigo e não me deixe achar que você perdeu o mistério que fascina. Sejamos leves para que o amor não seja breve.
E antes que você ache que eu exijo demais, preciso dizer, amor que virá, que a lista é extensa para me fazer lembrar o quanto eu aprendi com o amor que passou. O quanto, ao exigir de você, é a mim que exijo, pois eu sei que não se pode ir longe sem ceder, sem desejar, sem compreender. Ao amor que virá sugiro que não venha logo. Dê-me um tempo para preparar-me um pouco mais, a fim de acolhê-lo bem, deixando para trás os espectros que insistem em nos fazer crer que os amores são todos iguais.

16/07/2017  

quinta-feira, 6 de julho de 2017

De quem é a culpa?


O culpado não sou eu, é ele!
Por Elis Franco
          
        Penso que ser humano tem lá suas vantagens, e uma delas para mim é a capacidade de refletir sobre nossas ações e as ações alheias. Porém, infelizmente, nem todos os humanos exercitam a capacidade de reflexão, deixando-se levar pela autoacusação ou condenando uma atitude antes mesmo de saber o que precedeu tal comportamento dito equivocado. Talvez, a necessidade de achar um culpado afasta-nos de um questionamento importante e que precisa ser feito: o que aconteceu antes que isso acontecesse?
            A questão é que, ao fazermos esse questionamento, corre-se o risco de penetrar em um labirinto mais complexo do que imaginávamos e percebermos o quanto há uma intrincada rede por trás de um ato praticado ou uma reação ocorrida. No entanto, analisar as questões precedentes a uma prática não significa retirar a responsabilidade que cada pessoa deve ter sobre suas atitudes, mas, compreender, certamente não para passar a mão sobre a cabeça, os dilemas enfrentados antes de cada pessoa tornar-se o que é.
            Não deve ser difícil lembrarmos de uma situação em que criticamos duramente alguém do nosso convívio ou não, e só depois tivemos a percepção real dos fatores que contribuíram para que ele agisse assim, e isso gerou em nós o desejo de orientar sem condenar e, em casos mais graves, ser a favor da penalização, mas não contra a humanidade restante no ser que subverteu as regras sociais. Esse gesto é mais comum quando envolve pessoas com as quais temos um vínculo afetivo forte.
Mas isso só foi possível em momentos que aplacamos nosso desejo de julgar, quando o “erro” do outro não conseguiu incendiar em mim aquela  fagulha do mal, da perversidade que eu, por uma questão ética, por medo de sanções religiosas ou da lei, não permito que se manifeste em seu modo mais perverso. Dizer que é fácil agir dessa maneira é faltar com a verdade. Não é tarefa simples, é aprendizado contínuo.
Como diz o filósofo Luc Ferry, apropriando-se do conceito de Kant, é imperioso que exercitemos o pensamento alargado, ou seja, “arrancar-se de si, colocar-se no lugar do outro, e não somente para melhor compreendê-lo, mas também para tentar, num momento em que se volta para si, olhar seus próprios juízos do ponto de vista que poderia ser o dos outros”. Resumindo: é preciso exercitar a alteridade ou também teremos nossa parcela de culpa diante do caos que tem se tornado as relações sociais.

06/07/17


domingo, 18 de junho de 2017

Ser bom entre medíocres é fácil

Por Elis Franco
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Nas andanças da vida, as comparações e o juízo de valor são inevitáveis, independente da profissão ou papel social que escolhemos seguir. Para alguns, o peso do julgamento importa bastante, por isso, buscam destaque nem sempre da maneira mais coerente possível, ou seja, há quem, por incompetência ou preguiça de ser excelente, alie-se, a fim de sobressair-se, aos medíocres, àqueles que estão em condição de desempenho inferior ou igual ao seu, evitando partilhar momentos e experiências com quem apresenta, no momento, um nível maior de conhecimento ou de habilidade.
Duplo erro. Afinal, qual é a vantagem de ser bom entre aqueles que estão abaixo da ou na média? Qual a vantagem de não precisar expandir os conhecimentos, de não ter que ir além do previsto, de encarar os enfrentamentos e crescer com as discordâncias? Eu não estou querendo dizer que se deve apenas andar com os “melhores”. Não é isso, pois, estar ao lado dos medianos pode servir para exercitarmos o nosso desejo de excelência, desde quando isso não seja de forma pedante, mas solidária na partilha do saber, do criar e do agir.
Penso que desejar ser bom entre os bons implica um alargamento do que já somos. Não significa querer ser melhor que o outro, mas agir de modo a investir todo o potencial que se tem para realizar, de modo mais pleno, uma tarefa. Fugir dos considerados mais capazes é assumir a inferioridade, porém, sem desejar passar de fase, sem almejar aprender com o outro, negando-se a possibilidade de ser bom, apenas bom no que se faz, nem mais nem menos do que a nossa capacidade cognitiva e física nos permite em determinado momento.
É muito fácil ser bom poeta entre poetas esvaziados de metáforas; é muito fácil ser bom professor entre professores desmotivados, cujo entendimento é que basta dominar o conteúdo e garantirão a aprendizagem do aluno. Difícil é ter que reconhecer a fragilidade do que realizamos. Difícil é ter que olhar para o outro e reconhecer nele uma referência e, humildemente, desejar aprender a ser bom, não por imitação, mas através das estratégias utilizadas por alguém à frente de nós, ainda que apenas em um quesito.
Ser bom entre os bons exige de nós coragem para não se acomodar, exige que movamos as águas paradas das nossas ações. Ser bom entre os bons é exercício diário, é compreender o quanto somos limitados, mas também, o quanto temos uma capacidade imensa para superar as limitações. Melhor do que ser bom entre medíocres é saber-se não pleno, porém, diante do que nos falta, continuar trilhando o caminho que nos conduzirá ao melhor de nós.

18/06/2017

sábado, 10 de junho de 2017

Perdas e ganhos


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         Por Elis Franco
  
     A vida, como um trem em contínua viagem, às vezes exige de nós que desçamos do vagão para, lá adiante, percorrermos um novo caminho. As partidas geralmente deixam uma pontinha de dor, mas nem sempre elas são motivo de lamentação, sobretudo quando temos consciência de que vivemos o suficiente aquilo que estamos abandonando definitiva ou temporariamente.
         Partir não é o problema maior. O que potencializa a dor da partida é quando, por algum motivo, não queremos ir, quando desejamos permanecer, no entanto, é inevitável prosseguir, visto não cabermos mais no vagão onde estamos. Viver passa a ser então um dilema: ficar e sentir-se sufocado ou partir e sentir o vazio da não presença? Não é fácil decidir, todavia, é preciso correr o risco da decisão equivocada.
         Digo risco, pois, apesar de todas as possíveis análises realizadas, nada nos garante um futuro melhor do que o presente que abandonamos ou, por outras tantas razões, decidimos não abandonar. E isso se dá em diferentes esferas da nossa vida: é aquela profissão que já não nos preenche, ou preenche, mas não remunera bem; é aquele ambiente de trabalho tão sonhado, porém, sem nos fazer sentir a potência nossa enquanto profissional e, talvez, a pior partida: deixar para trás alguém a quem supomos amar, mas que não há mais como conciliar o amor e vida compartilhada.
         Esta viagem que é a vida, de fato, não é tarefa a se cumprir sem uma dose de medo diante das incertezas. O grande Guimarães Rosa acertou ao dizer que “Viver é muito perigoso”. Há perigo em ficar, há perigo em partir. Contudo, mais perigoso é deixar o medo nos paralizar, nos tirar o brilho dos olhos. Mais perigoso é decidir ficar ou partir sem compreender que toda decisão resulta em perdas e ganhos.
         A gente sabe que não é fácil, por isso dói tanto. Não somos Clarice Lispector ao escrever “O medo sempre me guiou para o que eu quero”. Às vezes, o medo nos finca onde não queríamos mais continuar. Ou, também, o medo de perder pode nos fazer ir ficando com as coisas e pessoas que realmente importam, ainda que nossas justificativas sejam outras. Há apenas duas alternativas: permanecer ou descer do vagão. Minto. Há como não pegar o trem, mas isso é deixar de viver.


10/06/2017  

domingo, 4 de junho de 2017

Cabeça bem-feita

            
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            A Era tecnológica trouxe-nos, entre outras coisas, a capacidade de acessarmos, através da internet, a uma quantidade imensa de informações relevantes ou não, em uma velocidade acelerada, exigindo de nós um esforço enorme para nos mantermos atualizados diante dos saberes produzidos pelas diferentes áreas do conhecimento, caso contrário, seremos denominados de arcaicos, obsoletos. Mas será que uma cabeça bem cheia é sinônimo de sabedoria?
            O filósofo Edgar Morin, em A cabeça bem-feita, leva-nos a refletir sobre a inutilidade do acúmulo de informações e convida-nos a ter uma cabeça bem-feita, “apta a organizar os conhecimentos e, com isso, evitar sua acumulação estéril”. E quando é mesmo que o que eu conheço torna-se estéril? Certamente quando nós não sabemos dar sentido aos dados que possuímos, quando não somos capazes de compreender a complexidade das relações humanas e operar sobre elas.
         Quando penso em cabeça bem-feita, imagino alguém capaz de não enxergar o mundo apenas como “isso ou aquilo”, mas que perceba a gama de possibilidades que podem existir e deixar de existir em determinados contextos. Penso em alguém  se “maieutificando” e não expurgando uma retórica vazia. Afinal, é sempre bom nos perguntarmos se somos capazes de defender, através de argumentos convincentes, as nossas crenças diárias.
Ter a cabeça bem-feita é estar aberto à reflexão. É dotar-se de sensibilidade diante do outro, diante do planeta e seus dilemas. É enxergar-se como alguém em construção e, por isso mesmo, suscetível ao erro, no entanto, consciente de que o que nos faz humanos é justamente a capacidade de mudar a rota quanto ela é autodestrutiva. Além disso, é ser capaz de compreender que, para além do que sou,  há milhões de pessoas também sendo.
            Não são os vários livros lidos, documentários e filmes assistidos que nos conduzirão a uma cabeça bem-feita, mas o modo como lidamos com todo esse acervo de conhecimento. Cada coisa que eu sei precisa ser posta em contato com a vida em seu caráter mutável e complexo. Cada coisa que eu sei deve transformar-se em força geradora de análise e ação críticas. Se assim não ocorrer, precisamos dizer como Renê Daumal: “Sei tudo, mas não compreendo nada”.

04/06/2017   

domingo, 28 de maio de 2017

O tempo do outro


Por Elis Franco
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A palavra esperar, do latim “sperare”, significa aguardar, ter fé. Durante todo o percurso de nossa vida, momentos de espera são constantes e podem vir acompanhados de ansiedade negativa  ̶  quando, em uma situação de doença, aguardamos um resultado de um exame, por exemplo  ̶  ou de ansiedade positiva  ̶  quando se espera a chegada de um filho ou de alguém que retornará de uma viagem. Além dessas, há uma espera que, na maioria dos casos, não somos pacientes para aguardá-la: a espera pelo tempo do outro.
Lendo o romance Amor em minúscula, do espanhol Francesc Miralles, dei de cara com este fragmento atribuído ao escritor Hermann Hesse: “cada qual avança como pode e está em um trecho diferente do caminho”. Logo me veio à mente o quanto não somos tão hábeis em respeitar o ritmo de vida das pessoas que conosco convivem, seja no trabalho, na escola ou na variedade de relações que estabelecemos, envolvendo-nos, assim, em conflitos desnecessários, deixando, inclusive, de ampliarmos nosso repertório de vivências.
É assim com o professor ansioso para que seu aluno, em algumas horas, aprenda aquilo que ele aprendeu ao longo da vida acadêmica e da prática cotidiana. É assim com pais que desejam ardorosamente que um filho introjete os preceitos assimilados durante anos de trajetória. E não é diferente quando nos colocamos como superiores ao outro, visto dispormos de uma variedade de saberes, os quais foram adquiridos não de uma hora para a outra, mas numa sucessão temporal nem sempre compatível com a dos nossos parceiros de caminhada.
Na estrada da vida, cada pessoa ocupa uma posição e há várias situações  ̶  intelectual, afetiva, piscológica ̶  que ora nos colocam na linha de frente, ora em uma posição menos privilegiada. Ninguém é sempre aquele que lidera. Talvez por isso seja importante olhar para os nossos companheiros de viagem com maior alteridade e exercitarmos a cultura do estímulo recíproco e da compreensão.
 Como afirma o filósofo Fernando Savater, “Ninguém é sujeito na solidão e no isolamento, sempre se é sujeito entre outros sujeitos”. Que nossas ações impulsionem e não sejam barreiras. Que nunca incitemos ninguém a colocar o chapéu onde o braço não alcança ainda. Mas, quando for possível, tornemos para o outro a impossibilidade momentânea menos frustante e despertemos nele o desejo de continuar a caminhada, sendo humilde para aplaudirmos quem, em algum momento, ultrapasse-nos.

28/05/2017

sábado, 20 de maio de 2017

Quando os pais são os tiranos


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“Filhos... Filhos?
Melhor não tê-los!”

Quando crianças, nossos pais, ao se depararem com nossas diabruras, indisciplina  e insucesso escolar, certamente recorreram à clássica frase “tome jeito, eu estou criando você para ser gente”, ou a outras similares. Mas será que eles tinham ideia do que era ser gente? Será que sabiam o quanto nós talvez achássemos apenas que ser gente era ser grande e feliz, e que nosso critério de felicidade não estava ancorado no ideal de felicidade que eles projetaram para nós?
Não é incomum encontrarmos crianças, adolescentes e jovens emparedados pelas escolhas realizadas por seus pais, seja porque eles desejam que sua prole assuma um lugar inalcançado por eles, seja porque anseiam que os filhos deem continuidade a seus projetos, carreiras e ideologias. Tudo bem que o papel do adulto é orientar os menos maduros, mas até que ponto a orientação deixa se ser amorosa para ser reguladora, autoritária, gerando, assim, indivíduos emocionalmente abalados?
Quantos jovens foram obrigados, ainda que de forma indireta, a escolherem uma formação profissional devido à pressão vinda de seus genitores? Quantos deles devem reprimir sua condição sexual, pois sentem-se desamparados diante do padrão defendido por seus pais? Quanto de amor se tem jogado fora ao acreditar-se que um filho tem a obrigação de recompensar o investimento recebido? Filhos não são ações empresariais, filhos não são marionetes. Filhos nascem potencialmente humanos e precisam de pais lúcidos, cuja responsabilidade é prepará-los para, no futuro, serem capazes de fazer escolhas e se responsabilizarem por elas.
Nenhuma criação opressora permite que o tornar-se “gente” não venha atrelado a traumas nem sempre solucionados pela psicanálise. O escritor Franz Kafka, em Carta ao pai, legou-nos um exemplo de como a tirania paterna é uma pedra no meio do caminho da formação do indivíduo. O autoritarismo dos pais pode até resultar em filhos bem-sucedidos financeiramente, mas, desde que não haja uma educação para o exercício da liberdade responsável, teremos esta avalanche de “gente” em crise existencial, pois ninguém pode ser feliz seguindo um roteiro que conduz a um lugar indesejado.
É óbvio que não há processo formador sem regulação, sem regras. Mas é preciso dosar instrução e afeto, princípio de realidade e solicitude, autoridade e diálogo. Afinal, ser “gente” é mistério que se descobre nas vivências diárias; ser “gente” é intrínseco, mesmo que, muitas vezes, aquilo que nos é externo dê-nos a ilusão de felicidade. Ser “gente” e ser feliz não dista muito. Nossos pais, mais do que qualquer outra pessoa, são fundamentais no processo de descoberta daquilo que nos fará não apenas “gente”, mas “gente” capaz de gerir, de maneira sensata, a própria vida.

20/05/2017




domingo, 14 de maio de 2017

Parir e ser mãe


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     Gosto da palavra parir mais do que da expressão dar à luz. Parece-me que parir tem mais força para representar o momento de dor ao expulsar um feto do útero. Parir é condição intrínseca ao sexo feminino e não importa se o parto é normal ou uma cesariana. Não é isso que nos interessa aqui. Parir não exige pensar muito, uma vez grávida e não interrompida a gravidez, é irremediável parir. Toda mulher biologicamente perfeita é uma “parideira em potencial”.
Ser mãe já é outro papo. Ser mãe é adquirir um comportamento que alguém, em algum momento da história, validou como correto. E isso implica refletir sobre como, em muitas sociedades, as meninas são treinadas para ser mãe: cuidam de bonecas e de casinhas, simulam preparos de refeições. Toda mulher que não cumpra o rito obrigatório é classificada como uma péssima mater.
As mães são idealizadas, são adjetivadas como guerreiras, apresentam amor incondicional, são protetoras e zelosas. Talvez pelo fato de que alguém teve interesse em jogar a responsabilidade da criação dos filhos nas costas delas, mas agora elas já não são apenas do lar, são do ler, das ruas e do mundo. E a culpa dos problemas da sociedade passou a ser delas, pois já não ficam em casa para cuidar da prole, como se os filhos fossem apenas seus.
Acho que esquecem de pensar o quanto parte das mães reais, inclusive eu, são chatas, fazem chantagem emocional, não ficam satisfeitas em apontar o caminho, querem percorrer toda a caminhada grudadas nos filhos, criando-os sem autonomia. Muitas não são afetuosas, pois não foram educadas para o afeto. Quantas não maldizem a maternidade ao perceberem que precisam mudar seu projeto de vida para encaixar a sua cria?
Penso que parir todas sabem, mas ser mãe, seja pela visão idealizada ou real, é algo que se aprende. E só se aprende na lida, na partilha de experiência. Acredito que a sociedade deva destronar as mães, para que elas possam ser mulheres livres, capazes de cuidar dos filhos sem precisar deixar de ser quem são. Mães não são heroínas, não são fadas, não são anjos. Mães, aquelas que escolheram ser, seja através do parto normal, da cesariana ou da adoção, e não apenas pariram, são pessoas normais, que erram, exageram e choram. Ser mãe não vem com manual de instrução. É preciso que cada uma construa seu projeto e execute-o no cotidiano nem sempre propício. Muitas acertam, outras tantas não.


14 de maio de 2017

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Para que serve a passagem dos anos?

        


 O mineiro Guimarães Rosa, sabiamente, afirmou que “O importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam.” Quanta beleza há nessas palavras! Quanta esperança nos trazem ao nos fazer crer que somos seres em transformação e que não há motivo para uma angústia irremediável diante de nossos desacertos. Afinal, qual a graça de uma vida linear? Qual o sentido de sermos sempre os mesmos, para o bem ou para o mal?
            Mudar de posição, de comportamento; mudar as atitudes e a forma de perceber o mundo não significa, longe do que muitos pensam, não ter personalidade. A persona que somos, ou que acreditamos ser, precisa abrir-se às experiências agradáveis e dolorosas pelas quais passaremos na vida, retirando delas as lições necessárias, a fim de que tudo seja aprendizado e não motivo para atitudes arrogantes ou desmedidas.
            A vida, assim como um instrumento musical, precisa de afinação. Só é capaz de afinar um instrumento quem dedica tempo suficiente buscando encontrar a nota certa. Ainda assim, depois de um tempo de uso, lá está o instrumento desafinado, exigindo nova atenção e cuidado. Do mesmo modo ocorre com a nossa existência, visto que, a cada ano, por mais que tentemos acertar, por mais que busquemos nossa afinação, volta e meia nos deparamos com a nossa capacidade de pôr tudo a perder.
            E o que fazer quando percebemos a nossa desafinação? Não há uma receita para viver. O que deve haver é uma predisposição para afinar a vida de acordo com aquilo que a própria vida insiste em nos ensinar. Há a afinação após um papo com um verdadeiro amigo, há uma afinação após uma dura verdade dita por quem não é tão amigo assim. Há a afinação após a perda de alguém que amamos, da leitura de um livro, depois de assirtirmos a um filme.
            São muitas as formas de ajustarmos a nossa persona, de repensarmos a caminhada sem ficarmos presos aos desacertos passados. A passagem dos anos deve servir, justamente, para não fincarmos os pés em situações que limitam o exercício de nossa humanidade, pois, como sugere o filósofo espanhol Fernando Savater, “Para ser homem não basta nascer, é preciso também aprender”. Dura aprendizagem, por sinal, mas, se assim não o for, apenas estaremos passando pela vida, sem sentir o gosto de ser o que se é no momento em que se sente. 

11 de maio de 2017