domingo, 16 de julho de 2017

Carta ao amor que virá

Por Elis Franco

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Em algum lugar de sua obra, Clarice Lispector diz que o amor não pode paralisar a vida da gente. Parafraseando Clarice, afirmo que o amor malsucedido não deve mesmo parar-nos por muito tempo. É óbvio que experimentar a angústia pós rompimento é natural. É uma etapa a ser cumprida para o bem do amor que virá, pois o amor vindouro não merece encontrar-nos presos a uma história sobre a qual as lembranças não nos trazem nostalgia.
É preciso, então, fazer uma alerta ao amor que virá: você pode encontrar a casa bagunçada! Não se espante com os cacos quebrados, com as marcas na alma. Não tente juntar os cacos, é melhor trazer um vaso novo, imprimir a sua marca. Ah!Também não queira que eu arrume a sua bagunça. Não sou boa nisso. Sugiro que façamos a nossa, que aprendamos juntos a lidar com ela, que alinhemos os passos na desordem irremediável que é viver a dois.
Ao amor que virá eu deixo um recadinho: talvez eu não seja o que você procura se o que você procura é alguém para demonstrar poder. Não lido muito bem com as tiranias. Sou das liberdades, das negociações. Não me coaja, não dite o que devo ou não fazer. Tente compreender as minhas razões para ser quem sou e fazer o que faço. Com delicadeza e atitudes, e não com imposição, eu posso até entrar em seu ritmo, desde quando ele não seja apenas para satisfazer seus caprichos sem fundamentos.
Tem mais uma coisa: não queira mais do que aquilo que você pode dar. É preciso equilibrar a balança.Compreenda também que nunca conseguiremos ser plenamente aquilo que o outro deseja. Esteja preparado para a rotina, mas não torne nossas vidas uma monotonia. Não se acostume comigo e não me deixe achar que você perdeu o mistério que fascina. Sejamos leves para que o amor não seja breve.
E antes que você ache que eu exijo demais, preciso dizer, amor que virá, que a lista é extensa para me fazer lembrar o quanto eu aprendi com o amor que passou. O quanto, ao exigir de você, é a mim que exijo, pois eu sei que não se pode ir longe sem ceder, sem desejar, sem compreender. Ao amor que virá sugiro que não venha logo. Dê-me um tempo para preparar-me um pouco mais, a fim de acolhê-lo bem, deixando para trás os espectros que insistem em nos fazer crer que os amores são todos iguais.

16/07/2017  

quinta-feira, 6 de julho de 2017

De quem é a culpa?


O culpado não sou eu, é ele!
Por Elis Franco
          
        Penso que ser humano tem lá suas vantagens, e uma delas para mim é a capacidade de refletir sobre nossas ações e as ações alheias. Porém, infelizmente, nem todos os humanos exercitam a capacidade de reflexão, deixando-se levar pela autoacusação ou condenando uma atitude antes mesmo de saber o que precedeu tal comportamento dito equivocado. Talvez, a necessidade de achar um culpado afasta-nos de um questionamento importante e que precisa ser feito: o que aconteceu antes que isso acontecesse?
            A questão é que, ao fazermos esse questionamento, corre-se o risco de penetrar em um labirinto mais complexo do que imaginávamos e percebermos o quanto há uma intrincada rede por trás de um ato praticado ou uma reação ocorrida. No entanto, analisar as questões precedentes a uma prática não significa retirar a responsabilidade que cada pessoa deve ter sobre suas atitudes, mas, compreender, certamente não para passar a mão sobre a cabeça, os dilemas enfrentados antes de cada pessoa tornar-se o que é.
            Não deve ser difícil lembrarmos de uma situação em que criticamos duramente alguém do nosso convívio ou não, e só depois tivemos a percepção real dos fatores que contribuíram para que ele agisse assim, e isso gerou em nós o desejo de orientar sem condenar e, em casos mais graves, ser a favor da penalização, mas não contra a humanidade restante no ser que subverteu as regras sociais. Esse gesto é mais comum quando envolve pessoas com as quais temos um vínculo afetivo forte.
Mas isso só foi possível em momentos que aplacamos nosso desejo de julgar, quando o “erro” do outro não conseguiu incendiar em mim aquela  fagulha do mal, da perversidade que eu, por uma questão ética, por medo de sanções religiosas ou da lei, não permito que se manifeste em seu modo mais perverso. Dizer que é fácil agir dessa maneira é faltar com a verdade. Não é tarefa simples, é aprendizado contínuo.
Como diz o filósofo Luc Ferry, apropriando-se do conceito de Kant, é imperioso que exercitemos o pensamento alargado, ou seja, “arrancar-se de si, colocar-se no lugar do outro, e não somente para melhor compreendê-lo, mas também para tentar, num momento em que se volta para si, olhar seus próprios juízos do ponto de vista que poderia ser o dos outros”. Resumindo: é preciso exercitar a alteridade ou também teremos nossa parcela de culpa diante do caos que tem se tornado as relações sociais.

06/07/17


domingo, 18 de junho de 2017

Ser bom entre medíocres é fácil

Por Elis Franco
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Nas andanças da vida, as comparações e o juízo de valor são inevitáveis, independente da profissão ou papel social que escolhemos seguir. Para alguns, o peso do julgamento importa bastante, por isso, buscam destaque nem sempre da maneira mais coerente possível, ou seja, há quem, por incompetência ou preguiça de ser excelente, alie-se, a fim de sobressair-se, aos medíocres, àqueles que estão em condição de desempenho inferior ou igual ao seu, evitando partilhar momentos e experiências com quem apresenta, no momento, um nível maior de conhecimento ou de habilidade.
Duplo erro. Afinal, qual é a vantagem de ser bom entre aqueles que estão abaixo da ou na média? Qual a vantagem de não precisar expandir os conhecimentos, de não ter que ir além do previsto, de encarar os enfrentamentos e crescer com as discordâncias? Eu não estou querendo dizer que se deve apenas andar com os “melhores”. Não é isso, pois, estar ao lado dos medianos pode servir para exercitarmos o nosso desejo de excelência, desde quando isso não seja de forma pedante, mas solidária na partilha do saber, do criar e do agir.
Penso que desejar ser bom entre os bons implica um alargamento do que já somos. Não significa querer ser melhor que o outro, mas agir de modo a investir todo o potencial que se tem para realizar, de modo mais pleno, uma tarefa. Fugir dos considerados mais capazes é assumir a inferioridade, porém, sem desejar passar de fase, sem almejar aprender com o outro, negando-se a possibilidade de ser bom, apenas bom no que se faz, nem mais nem menos do que a nossa capacidade cognitiva e física nos permite em determinado momento.
É muito fácil ser bom poeta entre poetas esvaziados de metáforas; é muito fácil ser bom professor entre professores desmotivados, cujo entendimento é que basta dominar o conteúdo e garantirão a aprendizagem do aluno. Difícil é ter que reconhecer a fragilidade do que realizamos. Difícil é ter que olhar para o outro e reconhecer nele uma referência e, humildemente, desejar aprender a ser bom, não por imitação, mas através das estratégias utilizadas por alguém à frente de nós, ainda que apenas em um quesito.
Ser bom entre os bons exige de nós coragem para não se acomodar, exige que movamos as águas paradas das nossas ações. Ser bom entre os bons é exercício diário, é compreender o quanto somos limitados, mas também, o quanto temos uma capacidade imensa para superar as limitações. Melhor do que ser bom entre medíocres é saber-se não pleno, porém, diante do que nos falta, continuar trilhando o caminho que nos conduzirá ao melhor de nós.

18/06/2017

sábado, 10 de junho de 2017

Perdas e ganhos


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         Por Elis Franco
  
     A vida, como um trem em contínua viagem, às vezes exige de nós que desçamos do vagão para, lá adiante, percorrermos um novo caminho. As partidas geralmente deixam uma pontinha de dor, mas nem sempre elas são motivo de lamentação, sobretudo quando temos consciência de que vivemos o suficiente aquilo que estamos abandonando definitiva ou temporariamente.
         Partir não é o problema maior. O que potencializa a dor da partida é quando, por algum motivo, não queremos ir, quando desejamos permanecer, no entanto, é inevitável prosseguir, visto não cabermos mais no vagão onde estamos. Viver passa a ser então um dilema: ficar e sentir-se sufocado ou partir e sentir o vazio da não presença? Não é fácil decidir, todavia, é preciso correr o risco da decisão equivocada.
         Digo risco, pois, apesar de todas as possíveis análises realizadas, nada nos garante um futuro melhor do que o presente que abandonamos ou, por outras tantas razões, decidimos não abandonar. E isso se dá em diferentes esferas da nossa vida: é aquela profissão que já não nos preenche, ou preenche, mas não remunera bem; é aquele ambiente de trabalho tão sonhado, porém, sem nos fazer sentir a potência nossa enquanto profissional e, talvez, a pior partida: deixar para trás alguém a quem supomos amar, mas que não há mais como conciliar o amor e vida compartilhada.
         Esta viagem que é a vida, de fato, não é tarefa a se cumprir sem uma dose de medo diante das incertezas. O grande Guimarães Rosa acertou ao dizer que “Viver é muito perigoso”. Há perigo em ficar, há perigo em partir. Contudo, mais perigoso é deixar o medo nos paralizar, nos tirar o brilho dos olhos. Mais perigoso é decidir ficar ou partir sem compreender que toda decisão resulta em perdas e ganhos.
         A gente sabe que não é fácil, por isso dói tanto. Não somos Clarice Lispector ao escrever “O medo sempre me guiou para o que eu quero”. Às vezes, o medo nos finca onde não queríamos mais continuar. Ou, também, o medo de perder pode nos fazer ir ficando com as coisas e pessoas que realmente importam, ainda que nossas justificativas sejam outras. Há apenas duas alternativas: permanecer ou descer do vagão. Minto. Há como não pegar o trem, mas isso é deixar de viver.


10/06/2017  

domingo, 4 de junho de 2017

Cabeça bem-feita

            
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            A Era tecnológica trouxe-nos, entre outras coisas, a capacidade de acessarmos, através da internet, a uma quantidade imensa de informações relevantes ou não, em uma velocidade acelerada, exigindo de nós um esforço enorme para nos mantermos atualizados diante dos saberes produzidos pelas diferentes áreas do conhecimento, caso contrário, seremos denominados de arcaicos, obsoletos. Mas será que uma cabeça bem cheia é sinônimo de sabedoria?
            O filósofo Edgar Morin, em A cabeça bem-feita, leva-nos a refletir sobre a inutilidade do acúmulo de informações e convida-nos a ter uma cabeça bem-feita, “apta a organizar os conhecimentos e, com isso, evitar sua acumulação estéril”. E quando é mesmo que o que eu conheço torna-se estéril? Certamente quando nós não sabemos dar sentido aos dados que possuímos, quando não somos capazes de compreender a complexidade das relações humanas e operar sobre elas.
         Quando penso em cabeça bem-feita, imagino alguém capaz de não enxergar o mundo apenas como “isso ou aquilo”, mas que perceba a gama de possibilidades que podem existir e deixar de existir em determinados contextos. Penso em alguém  se “maieutificando” e não expurgando uma retórica vazia. Afinal, é sempre bom nos perguntarmos se somos capazes de defender, através de argumentos convincentes, as nossas crenças diárias.
Ter a cabeça bem-feita é estar aberto à reflexão. É dotar-se de sensibilidade diante do outro, diante do planeta e seus dilemas. É enxergar-se como alguém em construção e, por isso mesmo, suscetível ao erro, no entanto, consciente de que o que nos faz humanos é justamente a capacidade de mudar a rota quanto ela é autodestrutiva. Além disso, é ser capaz de compreender que, para além do que sou,  há milhões de pessoas também sendo.
            Não são os vários livros lidos, documentários e filmes assistidos que nos conduzirão a uma cabeça bem-feita, mas o modo como lidamos com todo esse acervo de conhecimento. Cada coisa que eu sei precisa ser posta em contato com a vida em seu caráter mutável e complexo. Cada coisa que eu sei deve transformar-se em força geradora de análise e ação críticas. Se assim não ocorrer, precisamos dizer como Renê Daumal: “Sei tudo, mas não compreendo nada”.

04/06/2017   

domingo, 28 de maio de 2017

O tempo do outro


Por Elis Franco
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A palavra esperar, do latim “sperare”, significa aguardar, ter fé. Durante todo o percurso de nossa vida, momentos de espera são constantes e podem vir acompanhados de ansiedade negativa  ̶  quando, em uma situação de doença, aguardamos um resultado de um exame, por exemplo  ̶  ou de ansiedade positiva  ̶  quando se espera a chegada de um filho ou de alguém que retornará de uma viagem. Além dessas, há uma espera que, na maioria dos casos, não somos pacientes para aguardá-la: a espera pelo tempo do outro.
Lendo o romance Amor em minúscula, do espanhol Francesc Miralles, dei de cara com este fragmento atribuído ao escritor Hermann Hesse: “cada qual avança como pode e está em um trecho diferente do caminho”. Logo me veio à mente o quanto não somos tão hábeis em respeitar o ritmo de vida das pessoas que conosco convivem, seja no trabalho, na escola ou na variedade de relações que estabelecemos, envolvendo-nos, assim, em conflitos desnecessários, deixando, inclusive, de ampliarmos nosso repertório de vivências.
É assim com o professor ansioso para que seu aluno, em algumas horas, aprenda aquilo que ele aprendeu ao longo da vida acadêmica e da prática cotidiana. É assim com pais que desejam ardorosamente que um filho introjete os preceitos assimilados durante anos de trajetória. E não é diferente quando nos colocamos como superiores ao outro, visto dispormos de uma variedade de saberes, os quais foram adquiridos não de uma hora para a outra, mas numa sucessão temporal nem sempre compatível com a dos nossos parceiros de caminhada.
Na estrada da vida, cada pessoa ocupa uma posição e há várias situações  ̶  intelectual, afetiva, piscológica ̶  que ora nos colocam na linha de frente, ora em uma posição menos privilegiada. Ninguém é sempre aquele que lidera. Talvez por isso seja importante olhar para os nossos companheiros de viagem com maior alteridade e exercitarmos a cultura do estímulo recíproco e da compreensão.
 Como afirma o filósofo Fernando Savater, “Ninguém é sujeito na solidão e no isolamento, sempre se é sujeito entre outros sujeitos”. Que nossas ações impulsionem e não sejam barreiras. Que nunca incitemos ninguém a colocar o chapéu onde o braço não alcança ainda. Mas, quando for possível, tornemos para o outro a impossibilidade momentânea menos frustante e despertemos nele o desejo de continuar a caminhada, sendo humilde para aplaudirmos quem, em algum momento, ultrapasse-nos.

28/05/2017

sábado, 20 de maio de 2017

Quando os pais são os tiranos


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“Filhos... Filhos?
Melhor não tê-los!”

Quando crianças, nossos pais, ao se depararem com nossas diabruras, indisciplina  e insucesso escolar, certamente recorreram à clássica frase “tome jeito, eu estou criando você para ser gente”, ou a outras similares. Mas será que eles tinham ideia do que era ser gente? Será que sabiam o quanto nós talvez achássemos apenas que ser gente era ser grande e feliz, e que nosso critério de felicidade não estava ancorado no ideal de felicidade que eles projetaram para nós?
Não é incomum encontrarmos crianças, adolescentes e jovens emparedados pelas escolhas realizadas por seus pais, seja porque eles desejam que sua prole assuma um lugar inalcançado por eles, seja porque anseiam que os filhos deem continuidade a seus projetos, carreiras e ideologias. Tudo bem que o papel do adulto é orientar os menos maduros, mas até que ponto a orientação deixa se ser amorosa para ser reguladora, autoritária, gerando, assim, indivíduos emocionalmente abalados?
Quantos jovens foram obrigados, ainda que de forma indireta, a escolherem uma formação profissional devido à pressão vinda de seus genitores? Quantos deles devem reprimir sua condição sexual, pois sentem-se desamparados diante do padrão defendido por seus pais? Quanto de amor se tem jogado fora ao acreditar-se que um filho tem a obrigação de recompensar o investimento recebido? Filhos não são ações empresariais, filhos não são marionetes. Filhos nascem potencialmente humanos e precisam de pais lúcidos, cuja responsabilidade é prepará-los para, no futuro, serem capazes de fazer escolhas e se responsabilizarem por elas.
Nenhuma criação opressora permite que o tornar-se “gente” não venha atrelado a traumas nem sempre solucionados pela psicanálise. O escritor Franz Kafka, em Carta ao pai, legou-nos um exemplo de como a tirania paterna é uma pedra no meio do caminho da formação do indivíduo. O autoritarismo dos pais pode até resultar em filhos bem-sucedidos financeiramente, mas, desde que não haja uma educação para o exercício da liberdade responsável, teremos esta avalanche de “gente” em crise existencial, pois ninguém pode ser feliz seguindo um roteiro que conduz a um lugar indesejado.
É óbvio que não há processo formador sem regulação, sem regras. Mas é preciso dosar instrução e afeto, princípio de realidade e solicitude, autoridade e diálogo. Afinal, ser “gente” é mistério que se descobre nas vivências diárias; ser “gente” é intrínseco, mesmo que, muitas vezes, aquilo que nos é externo dê-nos a ilusão de felicidade. Ser “gente” e ser feliz não dista muito. Nossos pais, mais do que qualquer outra pessoa, são fundamentais no processo de descoberta daquilo que nos fará não apenas “gente”, mas “gente” capaz de gerir, de maneira sensata, a própria vida.

20/05/2017




domingo, 14 de maio de 2017

Parir e ser mãe


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     Gosto da palavra parir mais do que da expressão dar à luz. Parece-me que parir tem mais força para representar o momento de dor ao expulsar um feto do útero. Parir é condição intrínseca ao sexo feminino e não importa se o parto é normal ou uma cesariana. Não é isso que nos interessa aqui. Parir não exige pensar muito, uma vez grávida e não interrompida a gravidez, é irremediável parir. Toda mulher biologicamente perfeita é uma “parideira em potencial”.
Ser mãe já é outro papo. Ser mãe é adquirir um comportamento que alguém, em algum momento da história, validou como correto. E isso implica refletir sobre como, em muitas sociedades, as meninas são treinadas para ser mãe: cuidam de bonecas e de casinhas, simulam preparos de refeições. Toda mulher que não cumpra o rito obrigatório é classificada como uma péssima mater.
As mães são idealizadas, são adjetivadas como guerreiras, apresentam amor incondicional, são protetoras e zelosas. Talvez pelo fato de que alguém teve interesse em jogar a responsabilidade da criação dos filhos nas costas delas, mas agora elas já não são apenas do lar, são do ler, das ruas e do mundo. E a culpa dos problemas da sociedade passou a ser delas, pois já não ficam em casa para cuidar da prole, como se os filhos fossem apenas seus.
Acho que esquecem de pensar o quanto parte das mães reais, inclusive eu, são chatas, fazem chantagem emocional, não ficam satisfeitas em apontar o caminho, querem percorrer toda a caminhada grudadas nos filhos, criando-os sem autonomia. Muitas não são afetuosas, pois não foram educadas para o afeto. Quantas não maldizem a maternidade ao perceberem que precisam mudar seu projeto de vida para encaixar a sua cria?
Penso que parir todas sabem, mas ser mãe, seja pela visão idealizada ou real, é algo que se aprende. E só se aprende na lida, na partilha de experiência. Acredito que a sociedade deva destronar as mães, para que elas possam ser mulheres livres, capazes de cuidar dos filhos sem precisar deixar de ser quem são. Mães não são heroínas, não são fadas, não são anjos. Mães, aquelas que escolheram ser, seja através do parto normal, da cesariana ou da adoção, e não apenas pariram, são pessoas normais, que erram, exageram e choram. Ser mãe não vem com manual de instrução. É preciso que cada uma construa seu projeto e execute-o no cotidiano nem sempre propício. Muitas acertam, outras tantas não.


14 de maio de 2017

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Para que serve a passagem dos anos?

        


 O mineiro Guimarães Rosa, sabiamente, afirmou que “O importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam.” Quanta beleza há nessas palavras! Quanta esperança nos trazem ao nos fazer crer que somos seres em transformação e que não há motivo para uma angústia irremediável diante de nossos desacertos. Afinal, qual a graça de uma vida linear? Qual o sentido de sermos sempre os mesmos, para o bem ou para o mal?
            Mudar de posição, de comportamento; mudar as atitudes e a forma de perceber o mundo não significa, longe do que muitos pensam, não ter personalidade. A persona que somos, ou que acreditamos ser, precisa abrir-se às experiências agradáveis e dolorosas pelas quais passaremos na vida, retirando delas as lições necessárias, a fim de que tudo seja aprendizado e não motivo para atitudes arrogantes ou desmedidas.
            A vida, assim como um instrumento musical, precisa de afinação. Só é capaz de afinar um instrumento quem dedica tempo suficiente buscando encontrar a nota certa. Ainda assim, depois de um tempo de uso, lá está o instrumento desafinado, exigindo nova atenção e cuidado. Do mesmo modo ocorre com a nossa existência, visto que, a cada ano, por mais que tentemos acertar, por mais que busquemos nossa afinação, volta e meia nos deparamos com a nossa capacidade de pôr tudo a perder.
            E o que fazer quando percebemos a nossa desafinação? Não há uma receita para viver. O que deve haver é uma predisposição para afinar a vida de acordo com aquilo que a própria vida insiste em nos ensinar. Há a afinação após um papo com um verdadeiro amigo, há uma afinação após uma dura verdade dita por quem não é tão amigo assim. Há a afinação após a perda de alguém que amamos, da leitura de um livro, depois de assirtirmos a um filme.
            São muitas as formas de ajustarmos a nossa persona, de repensarmos a caminhada sem ficarmos presos aos desacertos passados. A passagem dos anos deve servir, justamente, para não fincarmos os pés em situações que limitam o exercício de nossa humanidade, pois, como sugere o filósofo espanhol Fernando Savater, “Para ser homem não basta nascer, é preciso também aprender”. Dura aprendizagem, por sinal, mas, se assim não o for, apenas estaremos passando pela vida, sem sentir o gosto de ser o que se é no momento em que se sente. 

11 de maio de 2017