sábado, 20 de maio de 2017

Quando os pais são os tiranos


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“Filhos... Filhos?
Melhor não tê-los!”

Quando crianças, nossos pais, ao se depararem com nossas diabruras, indisciplina  e insucesso escolar, certamente recorreram à clássica frase “tome jeito, eu estou criando você para ser gente”, ou a outras similares. Mas será que eles tinham ideia do que era ser gente? Será que sabiam o quanto nós talvez achássemos apenas que ser gente era ser grande e feliz, e que nosso critério de felicidade não estava ancorado no ideal de felicidade que eles projetaram para nós?
Não é incomum encontrarmos crianças, adolescentes e jovens emparedados pelas escolhas realizadas por seus pais, seja porque eles desejam que sua prole assuma um lugar inalcançado por eles, seja porque anseiam que os filhos deem continuidade a seus projetos, carreiras e ideologias. Tudo bem que o papel do adulto é orientar os menos maduros, mas até que ponto a orientação deixa se ser amorosa para ser reguladora, autoritária, gerando, assim, indivíduos emocionalmente abalados?
Quantos jovens foram obrigados, ainda que de forma indireta, a escolherem uma formação profissional devido à pressão vinda de seus genitores? Quantos deles devem reprimir sua condição sexual, pois sentem-se desamparados diante do padrão defendido por seus pais? Quanto de amor se tem jogado fora ao acreditar-se que um filho tem a obrigação de recompensar o investimento recebido? Filhos não são ações empresariais, filhos não são marionetes. Filhos nascem potencialmente humanos e precisam de pais lúcidos, cuja responsabilidade é prepará-los para, no futuro, serem capazes de fazer escolhas e se responsabilizarem por elas.
Nenhuma criação opressora permite que o tornar-se “gente” não venha atrelado a traumas nem sempre solucionados pela psicanálise. O escritor Franz Kafka, em Carta ao pai, legou-nos um exemplo de como a tirania paterna é uma pedra no meio do caminho da formação do indivíduo. O autoritarismo dos pais pode até resultar em filhos bem-sucedidos financeiramente, mas, desde que não haja uma educação para o exercício da liberdade responsável, teremos esta avalanche de “gente” em crise existencial, pois ninguém pode ser feliz seguindo um roteiro que conduz a um lugar indesejado.
É óbvio que não há processo formador sem regulação, sem regras. Mas é preciso dosar instrução e afeto, princípio de realidade e solicitude, autoridade e diálogo. Afinal, ser “gente” é mistério que se descobre nas vivências diárias; ser “gente” é intrínseco, mesmo que, muitas vezes, aquilo que nos é externo dê-nos a ilusão de felicidade. Ser “gente” e ser feliz não dista muito. Nossos pais, mais do que qualquer outra pessoa, são fundamentais no processo de descoberta daquilo que nos fará não apenas “gente”, mas “gente” capaz de gerir, de maneira sensata, a própria vida.

20/05/2017




domingo, 14 de maio de 2017

Parir e ser mãe


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     Gosto da palavra parir mais do que da expressão dar à luz. Parece-me que parir tem mais força para representar o momento de dor ao expulsar um feto do útero. Parir é condição intrínseca ao sexo feminino e não importa se o parto é normal ou uma cesariana. Não é isso que nos interessa aqui. Parir não exige pensar muito, uma vez grávida e não interrompida a gravidez, é irremediável parir. Toda mulher biologicamente perfeita é uma “parideira em potencial”.
Ser mãe já é outro papo. Ser mãe é adquirir um comportamento que alguém, em algum momento da história, validou como correto. E isso implica refletir sobre como, em muitas sociedades, as meninas são treinadas para ser mãe: cuidam de bonecas e de casinhas, simulam preparos de refeições. Toda mulher que não cumpra o rito obrigatório é classificada como uma péssima mater.
As mães são idealizadas, são adjetivadas como guerreiras, apresentam amor incondicional, são protetoras e zelosas. Talvez pelo fato de que alguém teve interesse em jogar a responsabilidade da criação dos filhos nas costas delas, mas agora elas já não são apenas do lar, são do ler, das ruas e do mundo. E a culpa dos problemas da sociedade passou a ser delas, pois já não ficam em casa para cuidar da prole, como se os filhos fossem apenas seus.
Acho que esquecem de pensar o quanto parte das mães reais, inclusive eu, são chatas, fazem chantagem emocional, não ficam satisfeitas em apontar o caminho, querem percorrer toda a caminhada grudadas nos filhos, criando-os sem autonomia. Muitas não são afetuosas, pois não foram educadas para o afeto. Quantas não maldizem a maternidade ao perceberem que precisam mudar seu projeto de vida para encaixar a sua cria?
Penso que parir todas sabem, mas ser mãe, seja pela visão idealizada ou real, é algo que se aprende. E só se aprende na lida, na partilha de experiência. Acredito que a sociedade deva destronar as mães, para que elas possam ser mulheres livres, capazes de cuidar dos filhos sem precisar deixar de ser quem são. Mães não são heroínas, não são fadas, não são anjos. Mães, aquelas que escolheram ser, seja através do parto normal, da cesariana ou da adoção, e não apenas pariram, são pessoas normais, que erram, exageram e choram. Ser mãe não vem com manual de instrução. É preciso que cada uma construa seu projeto e execute-o no cotidiano nem sempre propício. Muitas acertam, outras tantas não.


14 de maio de 2017