sábado, 5 de agosto de 2017

A festa do viver

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  Por Elis Franco           

       Desde que o homem tomou consciência da morte, da finitude, suponho que ele passou a buscar significado para o viver. Daí nasceram a religião, a filosofia e outras formas  de tentar explicar por que temos que passar por este vale de lágrimas que, para alguns privilegiados, não é tão lacrimejante assim, mas, para tantos outros, é um verdadeiro inferno dantesco. Se tem uma coisa que a vida não sabe ser é justa.
Há quem sofra muito e quem sofra o mínimo nesta viagem terrena, e não dá para saber ao certo por que a vida parece ser tão grata a alguns e tão carrasca com a outra parcela de humanos vitimada pelas guerras, pela fome, exploração e uma infinidade de situações que degradam a humanidade restante em cada homem e mulher, mesmo não tendo eles solicitado uma passagem para desembarcarem neste plano caoticamente organizado, segundo a regência da natureza ou de um ser superior, dependendo da crença de cada um.
Neste vazio da incompreensão do que é, de fato, o viver, ou melhor, para que mesmo vivemos, muitas foram e são as respostas produzidas a fim de preencher a lacuna dolorosa de ter sido convidado para uma festa, contudo, não ter a verdadeira dimensão do que se comemora ou da nossa importância para termos conquistado tão grande privilégio. Viver é travessia incerta, porém, alguns encontram consolo ao acreditar que haverá uma vida após esta, enquanto outros sabem-se matéria fadada a desintegrar-se e reintegrar-se ao universo.
Quem, afinal, teria a resposta certa para tornar o viver significante? Não sei se isso seria possível, embora muitos tenham tentado, mas é bonito observar como nós damos um jeito e encontramos nossas respostas, sejam elas idealizadas ou não. Assim é que recriamos a vida e, na dificuldade de saber o porquê de estarmos aqui, estabelecemos relações para tentar explicar, metaforicamente, este instante em que o universo nos acolhe para acariciar-nos ou atingir-nos com sua mão pesada.
E já que fomos convidados para a festa, cabe-nos aproveitar o banquete oferecido e dançar conforme a música tocada. Quando a festa é boa, importa-nos saber o motivo da comemoração e quem pagou a conta? E quando parte dos convidados não usufrui do banquete e não tem acesso ao salão, é possível aproveitar os festejos em paz, sabendo que os responsáveis pela organização não tratou a todos com equidade? Talvez, o significado de viver seja colaborar para que não nos sintamos constrangidos, diante dos convivas desprezados, com o privilégio recebido. E dane-se quem nos convidou. Se é que convidou!

05/08/17

domingo, 30 de julho de 2017

Encerrando ciclos


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Por Elis Franco

Toda nossa vida é marcada por cumprimentos de etapas. Passamos da infância à adolescência, desta à juventude, tornamos-nos adultos e, em muitos casos, saboreamos o que as pessoas chamam de “melhor idade”. Na vida educacional não é diferente: educação infantil, ensino fundamental, médio, superior, pós-graduação... É preciso vivenciar cada etapa de forma plena, a fim de estarmos preparados para a próxima, guardando do passado uma saudade que alenta, transborda-nos de sensações e da certeza de que é necessário prosseguir.
Às vezes, porém, nós lançamos âncora e fixamo-nos em algumas vivências, não avançamos, recorrendo aqui a um trecho bíblico, “para águas mais profundas. Ficamos saudosistas daquele amor que passou, não nos acostumamos com as marcas físicas que a passagem do tempo deixa em nossos corpos, sentimos amargura por ter que abandonar atitudes que não condizem com o caminho que, supostamente, escolhemos trilhar. Encerrar um ciclo não é, nem de longe, tarefa simples.
Há quem não lide bem com ciclos inevitáveis, como tornar-se um adulto autônomo, evitando, assim, assumir a direção da própria vida, já que assumir essa direção implica responder pelas atitudes tomadas. É melhor viver sobre a tutela de pais ou  outras pessoas, enfrentando um regime opressor, mas tendo quem culpar caso as coisas não deem certo. Em outras situações, o que falta é uma compreensão exata da necessidade de iniciar uma nova etapa.
Qual é o limite para alguém que enfrenta um relacionamento amoroso problemático perceber que está na hora de partir pra outro ou seguir sozinho? E para alguém que está insatisfeito no emprego ou com a profissão refazer a rota e recomeçar? Que linha demarca a fronteira entre o que eu sou e faço hoje do que eu precisarei ser e fazer amanhã? Parece fácil, mas não é. Acho que precisamos de umas aulas de ritual de passagem, só assim, talvez, saberemos o momento certo de navegar por mares desconhecidos.
Análoga às estações do ano, assim é a passagem humana pela terra: cada estação tem sua  beleza e seus desafios. Cada fase de nossas vidas tem seus encantos e frustrações. Resta-nos compreender a complexidade do viver , pois,  como disse o sábio Guimarães Rosa, “A vida é assim: esquenta e esfria, aperta daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Tenhamos coragem, então!

30/072017