domingo, 8 de março de 2026

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Arte da Palavra - Sesc Feira de Santana

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Projeto Arte da Palvra, com os escritores Tânia Souza e Marcelo Soares. Mediação da escritora Elis Franco. Sesc- Feira de Santana.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Conversa com a escritora Aline Bei no Flifs.

 

Festival Literário e Cultural de Feira de Santana (Flifs - 26/09/25).








terça-feira, 2 de setembro de 2025

O não (re)conhecido- Elis Franco

 


“todo ponto de vista é a vista de um ponto.”

(Leonardo Boff)

 

Certa vez, participando de um evento para professores, ouvi da palestrante uma história muito interessante. Ela nos contou que, por ocasião da celebração da páscoa, decidiu comprar bacalhau e couve para o almoço. No dia anterior à comemoração, precisou sair com a filha, deixando a casa sob os cuidados da empregada.

      Quando, no domingo, ela abriu a geladeira para separar os ingredientes, nada encontrou. Chamou a filha e relatou o ocorrido, cogitando que a empregada poderia, por algum motivo desconhecido, ter levado o bacalhau e a couve para casa. Sem saber o que realmente havia acontecido, voltou ao supermercado e fez novas compras, preparando o almoço como planejado.

         Na segunda-feira pela manhã, a empregada chegou com o sorriso largo e foi inquirida sobre o destino do bacalhau e da couve. Espantada, disse que, para facilitar a vida da patroa, havia colocado o bacalhau em uma vasilha com água e cortado a couve, pondo-os na geladeira.

     Tal não foi a surpresa da patroa, ao perceber que foi incapaz de encontrar os ingredientes. E tudo se explica pelo simples fato de ela está procurando o que para ela era óbvio: um quilo de bacalhau embalado e folhas de couve inteiras. No entanto, aquilo que ela procurava não assumia mais a mesma forma.

         Essa história, aparentemente tão boba, ajuda-nos a refletir acerca de nossas certezas sobre as coisas. Aquilo que nos parece óbvio pode não ser tão claro para outras pessoas, gerando, assim, equívocos e desencontros. Aquilo que eu tento fazer o outro ver, a partir do modelo que disponho, pode não estar sendo percebido pelo outro da mesma maneira.

           Além disso, chega um momento da vida que é necessário fugir da obviedade; não nos acostumarmos com um olhar incapaz de perceber além do que temos como parâmetro. Afinal, perceber nada mais é do que conhecer por meio dos sentidos. E devemos ser capazes de usar nossos sentidos para reconhecer as mudanças pelas quais o mundo passa, ou não conseguiremos fazer uso daquilo que julgamos conhecimento adquirido.

            A couve e o bacalhau continuam na geladeira.  Porém, só será capaz de fazer uso deles aquele que possuir a habilidade de (des)construir formas e conceitos que já não atendem mais ao contexto vivido. Reconhecer as mudanças não necessariamente para aceitá-las, mas para que não passemos por ridículos ao não sabermos agir, prudentemente, quando elas se apresentarem a nós.

28/02/15


FRANCO, Elis. Memórias afetivas. 2ª ed. ampliada. Salvador: Cogito, 2022. p. 25-25

Lições para a vida - Elis Franco



“O professor medíocre conta.
O bom professor explica.
O professor superior demonstra.
O grande professor inspira.”
 
“Um bom mestre não somente ensina a pensar,
mas também a maneira de estar devidamente no mundo.”
(Josep M. Esquirol)

 

            Muitos são os professores que passaram pela nossa vida, desde os anos iniciais até a nossa formação adulta, e, sem sombra de dúvidas, vários deles nunca serão esquecidos, seja pelo que fizeram de bom ou pelas artes de ruindade a que nos submeteram cotidianamente. São tantas histórias cômicas e trágicas que, às vezes, chego a pensar se ser professor é um dom ou, como defendeu Sartre, não nascemos condicionados a nada, mas podemos nos moldar e agir bem em qualquer tarefa, desde que nos empenhemos o bastante.

            Entre as minhas professoras megeras, aterrorizadoras (todos os adjetivos fazem parte da minha memória da infância e adolescência, por isso, pode ser que ela não fosse tão megera assim), lembro-me de uma chamada Nilzete. Além do tom de voz irritante que ela tinha, ensinava matemática; para a infelicidade geral da nação, já que esta é uma material amedrontadora para boa parte do alunado. Nilzete ensinou-me em mais de uma série, não sei precisar o tempo. E mesmo tendo concluído a educação básica há 20 anos, sempre que eu passo pela escola onde estudei, lembro-me de seus sermões irritantes, de alguém que parecia não querer estar onde estava; pelo menos era o que eu pensava na época.

Hoje, porém, acho que ela sabia da dificuldade que era lidar com a indisciplina e promover a aprendizagem, e talvez essa era a forma que tinha de tentar fazer com que nós aprendêssemos algo. Mas existiram outros professores do perfil dela. No entanto, os bons mestres que tive, os afetivos, certamente compõem um número bem maior. Posso citar as professora Iraci, Nadja, Márcia  Aparecida e Noelice, que era agoniadinha, mas gente boa; o professor Reinaldo e tantos outros. Porém, por alguma razão, há uma professora que marcou a minha vida e dela eu não consigo lembrar-me de nada negativo: Dineia.

Eu costumo acreditar que criei uma história sobre ela, pois a impressão que eu tenho é que tenha sido minha professora a vida toda, começando na alfabetização e, posteriormente, no ensino fundamental e médio. Se Dineia não foi a minha primeira professora, talvez a que ocupou esse lugar tenha sido tão afetiva quanto ela, então, ao me esquecer do nome da outra, transferi a importância que teve para ela. Dineia sempre foi muito solicita, organizava passeios e eventos na escola, em parceria com Noelice. As duas viviam juntas. Era algo além da lição para a prova.

Hoje eu também sou professora e, cada vez que repenso minha prática educativa, no fundo, fico com vontade de, no futuro, ser uma lembrança positiva para as inúmeras vidas que passaram e passarão por minhas mãos. Tenho percebido que, além do conteúdo programático, a nossa responsabilidade é ensinar o afeto, sobretudo quando vivemos em um momento tão carente de afeição e compreensão. Isso, em parte e na prática, aprendi na universidade, com as professoras Alana, Elvya e Nadja, mestras nos cuidados e na escuta. E sobre elas ainda escreverei um dia.

17/09/2017


FRANCO, Elis. Memórias afetivas. 2ª ed. ampliada. Salvador: Cogito, 2022. p. 23-24