sexta-feira, 31 de maio de 2013

Lembranças e invenções: Adelice Souza e seu primeiro romance

Esta estória não é minha, mas também não é alheia. 
(Adelice Souza)




O primeiro contato que tive com a prosa de Adelice Souza foi em 2010, quando cursava a Especialização em Estudos Literários, na Universidade Estadual de Feira de Santana. Lembro-me quando o professor Dr. Roberto Henrique Seidel propôs à turma a leitura de alguns livros, entre os quais estava As camas e os cães (2001), da referida escritora. Como nutro uma grande paixão por contos e o título dessa obra soou-me provocativo e inusitado, decidi escolhê-la. Assim, nove anos após o lançamento, fui seduzida por aquela primeira publicação de Adelice Souza, o que me levou a enviar-lhe um e-mail, parabenizando sua contística.
Posteriormente, obtive não apenas a resposta do e-mail, mas recebi pelo correio seus outros dois livros: Caramujos zumbis (2003) e Para uma certa Nina  (2009). A leitura atenciosa de seus contos resultou em um trabalho de final de curso, ao qual denominei A linguagem do desejo: erotismo e feminino em contos de Adelice Souza (2011). Nele, busquei analisar a linguagem erótica, as metáforas e encenações de Eros, destacando o papel feminino no exercício da sexualidade.  
Após ter publicado três livros de contos e participado de quatro coletâneas, a premiada escritora, baiana da cidade de Castro Alves, lançou em 2012 o seu primeiro romance, O homem que sabia a hora de morrer. Através de uma narradora que, mesmo adulta, apresenta a agilidade e alegria infantis/juvenis, a escritora consegue abordar com leveza a temática da morte, por meio de uma personagem que narra suas experiências e descobertas, ocorridas desde a infância. A morte serve como mote para falar da vida; dos mistérios e encantos que vão sendo esquecidos, ou melhor, substituídos por outros mistérios, por novas respostas para inquietações tão antigas.


                O romance apresenta um número significativo de marcas autobiográficas, aspecto já presente no conto “Dona Lia”, de As camas e os cães. Ao intitulamos este texto de Lembranças e invenções, nada mais fizemos do que tomar emprestadas as palavras da escritora que, no posfácio do romance, discorre sobre o cruzamento entre experiência de vida e criação literária. Desse modo, a análise aqui realizada evidenciará como a literatura, ao se apropriar dos fragmentos da memória, cria a sua própria realidade, transformando personagens e situações empíricas, em elementos ficcionais autônomos.  
            O homem que sabia a hora de morrer é uma narrativa em primeira pessoa, cuja narradora apresenta alguns episódios familiares, enfatizando a vida de um de seus avôs, Lau Rodrigues. O motivo pelo qual ela se identificava mais com um dos avôs, é o fato de ter ouvido dizer que ele sabia a hora em que iria morrer: “Meu avô não gostava de falar da morte. Nem da dele nem da dos outros. Tinha medo. Respeitava. Da boca dele, mesmo, nunca ouvi que ele sabia a hora de morrer. Era a conversa que versava na família, mas eu nunca perguntei como era” (SOUZA, 2012, p. 67).
            Lau Rodrigues, quando menino, vendia banana na feira e, desde esta época, já nutria o desejo de saber o dia de sua morte, enquanto seu irmão sonhava em se tornar maçom e enriquecer: “Além do meu avô que sabia morrer, eu tinha um outro avô. E mais duas avós. Mas a natureza tinha feito uma injustiça muito grande com eles: nenhum dos três sabia a hora de sua morte. E ter uma dos avôs que sabia a hora de morrer eclipsava os outros três” (SOUZA, 2012, p. 70).
            Ele não era um avô qualquer, era especial. Carregava uma aura de mistério que encantava a neta: falava com Deus ao seu modo, entoando, na mata, orações e cantos desconhecidos. Seu conhecimento de mundo adquirido de forma empírica e não através das ciências, permitia-lhe estabelecer relações e explicar os fatos: “Dizia que não gostava de papel, de número e letra no papel. Gostava dos números na cabeça. Das palavras na memória. E que não era analfabeto porque sabia ler as coisas do mundo” (SOUZA, 2012, p. 94).  Assim, reconhecia a chegada da chuva ao observar a casa de cupins e o brejo de sapos; fazia suas contas de cabeça e nomeava as constelações ao seu modo.
            A neta partilhou diversos momentos da infância com o avô e cresceu tentando desvendar o misterioso fato de Lau Rodrigues saber a hora em que morreria, e herdar dele esse conhecimento. A maioria dos episódios narrados se passa na roça, onde o avô morava, e na cidade onde ela morou até completar treze anos, quando teve de mudar para Salvador, a fim de continuar os estudos. Antes de Lau Rodrigues morrer, a neta passou por uma experiência simbólica da morte, quando, aos treze anos, foi avisada de que ele abandonou a casa da família. Acreditando que o avô havia morrido, vivenciou o luto de tal maneira que não sofreu quando ele de fato morreu e ela já era adulta:

Meu avô morreu com um tiro de espingarda. Era uma espingarda de cano duplo. Nem fuzil, nem rifle, nem cartucheira, como o meu avô gostava de chamar. Era uma espingarda caçadeira. Descobri depois, num mostruário de armas. O meu avô morreu com as duas mãos agarradas nela. Como se, depois de morto, continuasse a dizer: é minha, a espingarda é minha, a morte é minha, ninguém pode tirá-la de mim. (SOUZA, 2012, p. 119)
           
Assassinato ou suicídio. O sonho da neta em herdar o conhecimento sobre o dia de sua morte não chegou a se realizar, ao contrário, gerou mais inquietações e questionamentos. A única certeza que ela demonstra é a de que “Uma pessoa que nem o meu avô, quando morre, nem tem dor. Até a sua morte era amor. O meu avô sabia” (SOUZA, 2012, p. 122).
Apesar de mesclar em seu texto referências culturais de sua cidade natal, Castro Alves; de o nome da narradora começar com a letra A, assim como o dela; de o personagem avô se chamar Lau Rodrigues, uma possível referência ao seu avô Laurentino, a quem o romance é dedicado; de o capítulo 10 trazer referências sobre um acidente de carro que a neta sofrera, acidente esse sofrido pela escritora em 2005, Adelice Souza não construiu um romance memorialista. Como ela mesma afirma, o livro “[...] é um brinquedo, como um jogo de cartas, onde todas as lembranças e invenções estão misturadas num caldeirão” (SOUZA, 2012, p. 124).
Sobre essa relação entre memória e criação literária, Leyla Perrone-Moisés (1990, p. 105) evidencia que “Narrar uma história, mesmo que ela tenha realmente ocorrido, é reinventá-la”. As lembranças são lacunares e já não acreditamos que a literatura imite o real. Ela é apenas uma entre outras possibilidades de representá-lo, partindo ou não de situações e imagens arquivadas em nossa memória. Desse modo, segundo o escritor e ensaísta Autran Dourado (2000, p. 95), “[...] os romancistas e novelistas, na sua modéstia e simpleza aparentes, sabem que usam do real com inteira liberdade [...] O criador amassa a realidade para criar uma outra realidade, uma realidade que obedece à geometria literária [...]”.
Certamente, foi obedecendo à geometria literária que Adelice Souza nos presenteou com o capítulo “Canto XIII- De volta para a casa”, o qual eu considero a melhor passagem do romance. Nesse capítulo, ela, que além de escritora é diretora teatral, utilizou dos conhecimentos mitológicos e de dramaturgia, para compor a cena em que o avô Lau presencia, pela primeira vez, uma apresentação teatral. A peça, uma adaptação da Odisseia, foi realmente dirigida por Adelice Souza quando ela trabalhou no Liceu de Artes e Ofício.
É um belíssimo episódio em que os mitos gregos e os orixás africanos representam o retorno de Odisseu para casa. Além disso, ela insere no texto teatral cantigas populares, trava-línguas, samba de roda, e outras canções do repertório brasileiro, todos esses elementos em total harmonia com o texto e em confluência com a nossa cultura. Nesse ponto do romance, a narradora presentifica, sem dúvida, a Adelice Souza diretora teatral e a escritora.  
            Em O homem que sabia a hora de morrer, Adelice Souza mostra-se plenamente capaz de assumir outra voz que não a da maioria de suas narrativas curtas. Essa narradorinha, que não perdeu a ternura infantil, nos faz relembrar de um tempo em que os adultos reuniam as crianças e contavam histórias mirabolantes; que o poder das folhas, das rezas e da sabedoria popular era valorizado.
            Quem olha para a imagem sombria da capa do livro, sequer pode imaginar que a escritora aborda a temática da morte de uma maneira tão delicada, fazendo-nos perceber o quanto não há vida sem morte. O livro é um romance e não uma biografia. O avô da escritora não sabia a hora de morrer e a morte do personagem não reflete a morte de seu Laurentino, mas sim, é uma homenagem ao escritor Hemingway.
            Nesse seu primeiro romance, Adelice Souza reelabora suas lembranças, preenche vazios com invenções, faz da vida literatura e da literatura vida. O primeiro capítulo apresenta o símbolo alfa, o que sugere o início de tudo, porém, o capítulo final não traz o ômega, símbolo do fim. Assim, podemos inferir que, para a escritora, a morte não é o fim, é “[...] somente uma ponte para o outro lado, uma ponte” (SOUZA, 2012, p. 120); que seu texto não acaba na última palavra, mas continua em cada leitor que se dispõe a folhear as páginas desse romance, desejando, talvez, compreender os mistérios da morte, a beleza da vida.
            Saudações a esse que será, provavelmente, o primeiro de muitos de seus romances e, como declara Affonso Romano de Sant’Ana na apresentação do livro: “Longa vida a esse texto e a Adelice.

Texto apresentado no Curso Castro Alves 2012- VII Colóquio de Literatura Baiana, realizado pela Academia de Letras da Bahia.

REFERÊNCIAS

DOURADO, Autran. Uma poética de romance: matéria de carpintaria. Ed. rev. e ampl.  Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
PERRONE-MOISÉS, Leyla. A criação do texto literário. In:_____. Flores da escrivaninha: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 100-110.
SOUZA, Adelice. O homem que sabia a hora de morrer. São Paulo: Escrituras Editora, 2012.